quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Flores não tão rubras sobre a neve


Flores não tão rubras sobre a neve     

 (da série: Coisas a dizer...)


            Flores trêmulas, descoloridas
            resistem o que podem ao frio
            sorvendo sôfregas fios de sol
            no cabedal do ocaso da estação.
           
            Com humilde melancolia
            vão despojando pétalas rubras
            no branco neve em halos de sangue
            escorridos dos olhos de nuvem.

            Sonolentas, se deixam levar
            ao embalo do vento canção de ninar
            dos flocos que caem em liturgia
            e entorpecem, entontecem, endoidam.

            Aos poucos adormecem
            sonhando com o sol numa cadeira
            abstração de quem pensa na morte
            fim de um ciclo, último fio do rito.

            Sem ter cheiro de chuva, cascas de fruta madura
            zumbido de abelhas, espraiados tons de areia
            ilhas em tapetes de cores, borboletas multicolores
            noites claras lunares, meninos gritando parlendas
            nervuras de trepadeiras, o vivaz limo da madeira
            um besouro solto no chão, a fugaz lagartixa no murro
            a pedra que brilha de lume, prisma etéreo de lua
            da lua zombeira, dos pés esticados da macieira
            do som de realejo grilo, corujas e uivos de cães
            na ausência do sol despertar, caladas de gelo
            se deixam quedar em inerte harmonia
            ao findar de tardes silenciosas e vazias.
                       
            Pois que então sucumbem, inteiras
            em talos raquíticos de altiva renúncia
            quanto mais se despedaçam em cacos
            mais poéticas, inteiras e serenas.
           
            Até que nada reste, só a semente
            para que em um novo despertar vindouro
            saibam florir para não deixar mais
            de estamparem no rosto da primavera
            a esperança de quem hoje espera e dorme em agonia.
           

            (Perguntas então e digo junto:
            - Seremos flores?)
           
            (R. Moran)
* todos os direitos reservados ©

5 comentários:

  1. Gostei muito do Teu espaço...
    Seguindo-te! Pretendo vir sem pressa para ler Teus escritos. Parabéns

    ResponderExcluir
  2. Moran, Obrigada!
    Volte sempre, será uma honra e um prazer tê-lo por lá... Sempre bem vindo...
    Adoro Teu espaço também.
    Grande Beijo!

    ResponderExcluir
  3. Moran, somos flores... somos sementes...por isso, podemos escolher o que plantar e não o que colher. Mas sei que no momento certo, iremos sim, florescer.

    Beijos - saudades!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado Gil, pelas palavras e pelo carinho. Bjs

      Excluir
  4. Diante de tudo que li e senti.....só posso dizer que certamente somos flores!

    ResponderExcluir

Obrigado por sua participação. Seja livre para opinar, discordar, dar sugestões ou contribuir para o melhor caminho do Andarilho.

Para mí, solo recorrer los caminõs que tienén corazón...