sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Dias ruins


Dias ruins


* Como tantas outras coisas guardadas na alma,escrito em algum lugar do passado ...




"Amor eu sinto a sua falta
E a falta, é a morte da esperança
Como um dia que roubaram o seu carro
Deixou uma lembrança
 
Que a vida é mesmo
Coisa muito frágil
Uma bobagem
Uma irrelevância
Diante da eternidade
Do amor de quem se ama..."

Nando Reis

Tenho um pequeno baú, e nele sonhos antigos. Tenho uma mochila com uma escova de dentes e um pente. Tenho oceanos para mergulhar e redes que tento driblar. Tenho muitas noites e tantas palavras por dizer. Tenho ninguém para me escutar. Tenho um incêndio que me consome por dentro. Tenho inúmeros canais de merda para escolher na TV. Tenho ausências e caminhos escuros dentro de mim. Tenho um sexto sentido e incríveis poderes de observação.

Assim soube, que quando tentasse nos desvencilhar das redes,  escutaria um Não! Tentando impedir de nadar para longe, distante do passado que sufoca, muito além das águas circundantes. Algumas vezes penso que sou um. Outras que estou temporariamente louco. Quando a taça se partiu? Como pôde tratar assim o que não tinha preço?

Quando criança, vi de relance pelo canto do olho que existiam muitos mundos. A criança cresceu e alguns mundos se foram. Não devo mais tocar nisso agora. Hoje tenho uma caixa de lápis de cor e um papel para desenhar. O que não tenho no momento é inspiração. Já tive um coelho e sentimentos de menino. Hoje eu tenho um carro e a amargura de homem. Tenho olhos brilhantes e ferozes. E também um forte desejo de voar. Mas para onde voar?

Oh, amor, quando finalmente rompo as redes, o oceano seca e eu me debato sem ar. Noite após noite, o amor se acinzenta, como a pele de alguém que está morrendo. Seguimos a vida, fingimos que está tudo bem, mas envelhecemos, e o coração ficou mais frio. O que aconteceu? Alguém mais aqui se sente como eu me sinto? Seus lábios se movem, mas não posso mais escutar o que dizem.

Quando criança, tive uma febre e meu corpo inchou como um balão. Hoje tenho uma imensidão na alma e uma fome insaciável a preenchê-la. Eu tenho uma janela e uma rua silenciosa para contemplar. Tenho uma tempestade se aproximando, tenho o fio de uma navalha afiada me cortando. Apertando como um torniquete, seco como um forno funéreo. Todas as chamas já se apagaram, mas a dor permanece. Eu venho em ondas. Eu tenho um barco, o rumo é que por hora perdi...


Não te assustes, é uma fase passageira, um dos meus dias ruins...


(da série: Coisas a dizer... )



(R. Moran)

* todos os direitos reservados ©













quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Algumas coisas a dizer...


Algumas coisas a dizer(antes que o tempo acabe)



Todos nós estamos à beira do precipício. Todo o tempo, toda hora. Um penhasco que todos iremos saltar um dia. Onde haverá um momento de escolha. Mas nossa escolha não é sobre isso. A escolha é se queremos ir a força e gritando ou se queremos abrir nossos olhos e corações para contemplarmos o que acontece enquanto caímos. As pessoas gostam de analisar as coisas que lhes causam medo. Para olhar para elas e dar nomes. Os religiosos procuram a Deus, os cientistas as evidências e os fracos que não sabem lidar com seus espectros, a bebida, o isolamento químico ou outro refúgio qualquer para a dor. Todos de alguma forma buscando resolver o mistério da vida, para se livrarem do medo. Ou para suas almas ficarem suficientemente entorpecidas e ausentes onde nada mais os alcance, assim pensam.

Quando se faz alguma coisa que não se pode voltar atrás, algo que você não compreende, você procura se segurar naquilo que compreende. E quando isso não basta mais, pode-se simplesmente desistir e esperar a morte ou superar-se na busca de um sentido além de todas as coisas que você compreende. Porque se você acreditasse que tudo que você teve que fazer foram coisas certas, teria que encontrar uma razão. Mas o que acontece quando você acha as razões e elas não são as suas razões? Como você encontra algum conforto e sentido nisto? Quando se é apenas uma marionete nas razões e sentidos das sombras...

Muitas pessoas perdem as esperanças de que qualquer coisa possa mudar em suas vidas depois de um tempo. Apenas levam suas vidas, dia após dia, e se algo acontece que as torne diferentes, elas provavelmente nem conseguem notar, exceto por um sentimento incomum ou muitas vezes desagradável. Por que são avessas as mudanças... mesmo se for para melhor. É incrível como o ser humano se apega a tudo, incluindo as coisas ruins. Principalmente as ruins, pequenas ou grandes.

O mundo é feito de grandes coisas e de pequenas coisas. A parte mais insensata e quando damos o nome de “grande” e “pequena”. Porque quando algo nos acontece, quando perdemos alguma coisa ou alguém com quem nos importamos, isto é tudo para nós. Não interessa se o mundo está acabando. Nada mais é tão importante quanto nossa perda. Porque ela nos mostra o quão mais e mais solitários ficamos a cada dia.

Quando eramos apenas crianças, tudo que queríamos era que as estórias e os contos de fada fossem verdadeiros. Sabíamos que isto não iria acontecer, mas bem no fundo torcíamos para que de alguma sorte estivéssemos enganados. De alguma forma sabendo que a magia estava ali, em algum lugar, escondida. Trata-se de esperança. O natal, por exemplo, se trata de esperança. Quando a criança que havia em todos nós contemplava a árvore de natal, esperávamos ansiosos por novos brinquedos. As pessoas envelhecem, os brinquedos são maiores, mas no fundo a esperança persiste. Pena que ela não seja a mesma. Porque alguns até esperam a paz na terra, alguns poucos podem desejar o amor; um amor sincero; ou talvez um amanhã melhor, qualquer que seja sua ideia disso. Mas a maioria das pessoas só querem mesmo algo mais luminoso, brilhante, caro e novo. Na tentativa de suprimir o imenso vazio que se expande nos confinados muros interiores. Na falta da crença naquilo que realmente importa.

As pessoas acreditam no que elas querem acreditar. Encontram o significado do que podem e se apegam a isso. No fim, não importa muito se é verdade ou um torpe engano. O que importa é apenas no que acreditam. A vida pode ser como um passeio de montanha russa. Existem altos e baixos. Tem grandes sustos, manobras rápidas, lentas, frio na barriga, emoções e um lugar onde tudo acaba. A diferença é que na montanha russa você sempre volta ao ponto em que começou, e na vida você está em um ponto totalmente diferente daquele que embarcou.

Todas as pessoas buscam de algum modo acreditar que têm o controle sobre suas vidas E na maior parte do tempo, realmente acreditam estar no comando. Mas é quando algo acontece que se lembram que o mundo obedece suas próprias regras e não a dos homens, e que estamos aqui apenas de passagem. Somos todos mortais. Poucos de nós realmente conseguem entender o que se passou; a maioria sente apenas que não houve tempo suficiente. Tempo para conhecer ao outro, tempo para amar, tempo para sonhar e tempo para viver.

O que nos faz humanos? Poder pensar? Sentir, viver, rir e chorar... Como podemos experimentar a alegria ou a dor? Raiva... Nós podemos machucar e nós podemos fazer rir e nós temos um passado e um presente. E, de algum modo... um futuro. E talvez, uma das coisas que nos faça humanos, é o fato de sabermos o suficiente para pensar que não nascemos para estar sozinhos. Que possa existir alguém que nos compreenda na forma e na essência que somos. Mas infelizmente, muitas vezes estamos cegos e incapazes de perceber a sorte que se nos apresenta. Estamos limitados pelos muros de nossa prisão interior, agrilhoados ao sofrimento, sem conseguirmos olhar para fora.

As pessoas estão sós neste mundo por diversas razões diferentes. Muitas têm algo em sua disposição; outras talvez só tenham nascido muito mesquinhas... outras por terem nascido muto carinhosas. Porque manifestar carinho nestes tempos pode ser visto como inadequação. Outras ainda são levadas a esta condição por algumas circunstâncias. Como uma calamidade ou por um coração partido. Ou qualquer outra coisa desventura que tenha acontecido em suas vidas cujo resultado não esperavam. E ao invés de se desvencilharem disto, se agarram a estes momentos e a eles se entregam em um eterno sofrer. E se fecham para tudo... para novos momentos, novas oportunidades. As pessoas estão sós neste mundo por muitas razões diferentes. A única coisa que sei, é que, não importa o que qualquer uma delas possa dizer... ninguém quer estar sozinho.

Muitas pessoas não apreciam ou não sabem apreciar o carinho ou a generosidade existente no outro. Também são incapazes de ver a tristeza em alguém. Por estarem elas mesmas tão tristes, tão tristes, mas tão profundamente tristes, que a única coisa que conseguem é sorrir e dizer à todo mundo que estão bem e são felizes. Sem enxergarem a si próprias, o que dirá enxergar ao outro...

Existem algumas coisas que não compartilhamos com qualquer pessoa. Todos temos nossos medos e segredos. E tristezas... Eu não me importaria se alguém visse em mim a tristeza. Talvez fosse o princípio para que também pudessem enxergar uma certa beleza, um gesto de mãos ou uma disposição carinhosa. Uma vez aconteceu comigo. Mas não com o resultado que esperava. Porque nada é tão simples. Em tempos comuns, os homens comuns levam vidas simples em meio à coisas comuns. Mas estes não são tempos comuns. É tempo de dor, de morrer e talvez de renascer se tivermos suficiente poder pessoal.

Tudo que precisamos saber está aqui, agora. O sucesso e o fracasso juntos. A dor e a alegria; a partida e a chegada. Momentos em que nos aproximamos e momentos em que nos afastamos. E tudo tem um final. E tudo se inicia. Isto é o máximo com que devemos nos preocupar.

A voz interior agora está se dirigindo àquela parte de nós que insiste em desenhar nas paredes das nossas prisões. Um grafite escuro a seguir os contornos daquilo que ainda não existe; não existe mais ou nunca existiu. Uma escrita com a qual cada um fará sua relação das coisas que fazem o coração bater. Na esperança de um dia ter a quem oferecer. Senão, simplesmente rasgá-la... como se desliga a luz... como se apaga a vida. De toda forma, haverá, algum dia, uma última poesia.
 
(R. Moran)
Da série: Coisas a dizer: para quem foi e quem vem  depois...
 
 
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sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Estátuas

Estátuas
 
Entre amargo e silente
no inverno em que estou
este é o único presente
que eu mesmo me dou...
 



No jardim secreto que surgiu, enquanto pelo mundo corria,

onde pássaros não se explicam e flores não são só cores,

havia duas estátuas nuas a se tocarem, intensas e exatas

de bocas amantes envolvidas, voluptuosas e agradecidas.



Era noite e primavera, e a lua derretia um brilhante fio

nos corpos marmóreos úmidos de tímido sereno caído

que tímido ficava ao tocar a superfície de pedra esculpida

feitas de duas estrelas tutelares, de sal e do cristal dos mares.


Enquanto pensava o que se pensa neste contemplar à vida

aparecestes por sobre este jardim, em sonora e silenciosa alegria

surgindo por entre visões do céu, em nácar de orvalho trêmula

trazendo à luz um sorriso, onde o sonho ousou pensar um motivo



E no equilíbrio do silêncio, o peito nutria a duração de tua presença

num fio de respiração, o lábio do sentimento unia-se ao teu apetente

e extenuada nossa fome, deitada de olhos fechados ficavas no peito meu

e deitados dormíamos unidos, até próxima noite, em estátuas convertidos


Por ali algumas noites permaneci, sem passado, presente ou futuro

e a ti, Deusa do humor volúvel, fui como nunca ninguém foi ou será

e inebriado com teus olhos de primavera e muitas coisas acontecidas

sonhei caminhos sem saber, como era fácil pela seta do silêncio morrer



E uma noite – sem motivo ou aviso – se deu coisa estranha e dolorosa

em que transtornada fizestes para sempre o jardim destituído de glória

uma noite sem lua, em que dissestes que tudo é efémero e passa alhures

porque em ti um tempo triste, enevoado e profundo, há muito persiste



E nesta noite fatídica, em que se anuncia o fim do sentimento vivido

cresceram nuvens sobre a lua, quedaram as flores, cessaram os cantos

caíram os olhos do meu olhar, e foram ao chão com os mitos de pedras

e no sopro da noite deserta, deitadas às sombras, à última estrela encerra


Hoje é inverno na alma, e sem tristeza, circunspecto por perda e saudade,

por vezes me debruço no muro do jardim silencioso e vazio em que estão:

mutiladas flores; a primavera abolida; o solo escuro; os pássaros calados;

e as partes ao chão, perfeitas e ordenadas, de duas estátuas quebradas.


(R. Moran)
Da série: Coisas a dizer: para quem foi e quem vai chegar depois...


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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Depois do ensaio...


Depois do ensaio
 
 


 
Vivo um momento ímpar em minha história. Nunca estive tão fodido e nunca estive tão imerso em um insight pleno de vida. Profundo. Misterioso. Profano.

 Mas ondas apenas batem e vão? Olho no espelho, e o que vejo são cúmulos de perdas e achados mágicos. E a dor nunca foi tão grande por entender. Quais são os limites do homem? Constantemente a ciência pergunta. Sem nunca ter respostas concretas, avanços continuam na medida do escoar das horas universais. Mas pergunto eu diante do espelho: quais são as limitações do homem? Seus gargalos, onde a luz se estreita, o bico se afina no funil do tempo... Onde estes passos nos levam? Estamos cientes dos danos causados ao outro e principalmente ao escuro e fundo de nossas almas? Perguntas que batem em muros de contenção do ego e rechaçam em forma de fogo frio, que inundam por nossas bocas, atravessam com gosto de fel o palato, tergiversam pelo peito em notas dissonantes e depois se queimam no ácido de nossas palavras interiores. Sufocados pelo próprio vomito de pura bílis mental. Desgastados. Incompatibilizados. Desestruturados. Tudo proporcional ao quanto de cegueira nos impomos, O quanto dizem o que vestir, por onde andar, onde ir... mas nunca nos pedem para voltar. Ao útero; o berço no nascimento das vontades. Vontades conflituosas que nos são colocadas desde o princípio: os conceitos duais; o claro e o escuro; em cima e embaixo; este é verde, o outro é amarelo; um é bom, o outro é mal... o prazer e a dor. Mas ondas batem e depois vão, porém antes depositam algo em nossas praias. E pode ser um pequeno grão de areia, como concha coral. E então... um dia percebemos que a desestruturação ajuda a desconstruir o mundo criado pela vontade dos outros. Que o desgaste é natural para a rocha, pela ação das tempestades de vento que sopram e aparam as arestas. Ainda que para isso transcorram séculos... 

E a alegria nunca foi tão grande pelo aparente sofrer – eu sou um otimista de fato, antes de tudo. E antes que alguém questione que deveria ter começado pela frase anterior, dizem que a ordem dos fatores não altera o produto. Assim, não há diferença entre começar e terminar. Tudo que começa, termina. E quando termina, é que tudo começa. Verdade. Encantamento. Magia. Os momentos ímpares, que são únicos, e por isso mesmo não são duais. Um, dois ou três... frações de um Todo. O quanto é o limite do Todo? Justamente, não existe um limite. Isso eu já descobri. Falta apenas você chegar. Ter esperanças e dizer isto todos os dias... é o que resta para quem semente dorme, e espera em agonia novo despertar. Por hora, cansei de tentar explicar aos muros.

 

(R. Moran)
 
(Da série: Coisas a dizer... para quem foi e quem vai chegar depois)
* texto escrito domingo, 14/10, à noite. Magicamente, hoje algo inusitado aconteceu. Penso que é hora dele ser publicado.
 


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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Ensaio de uma vida anunciada


Ensaio de uma vida anunciada


Se o Sol explodisse agora, só teríamos conhecimento do fato após oito minutos, porque é o tempo que sua luz leva para viajar até nós. Por longos oito minutos o mundo ainda estaria no lugar, iluminado e quente, seguindo seu fluxo habitual. Então haveria um flash... e depois viria a onda de choque, radiação, calor, ondas eletromagnéticas... e tudo deixaria de ser. Mas se alguém pudesse saber disso no instante em que ocorresse, o que faria nestes oito minutos restantes? Ligaria para alguém que fosse importante para ela; abraçaria um estranho na rua; escreveria um breve poema; iria chorar e se arrepender de coisas que fez; iria chorar e se arrepender de coisas que não fez; desejaria simplesmente caminhar de mãos dadas nestes últimos instantes; contemplaria o céu admirando sua beleza, sabendo que era a última coisa que iria ver; desejaria poder beijar alguém em que houvesse amor verdadeiro; tomaria um sorvete; ficaria nu; gritaria desesperada ou calmamente se permitiria sentar e esperar o espetáculo final?

Para onde caminhamos, para onde estamos indo, ainda é uma pergunta em aberto. Mas penso que deveríamos ter o bom senso de questionarmos mais sobre tudo o que nos ensinaram até agora. Sobre o status quo determinado pela sociedade e a forma como temos vivido. Tem valido a pena? Somos felizes com toda a tecnologia disponível, o materialismo e os padrões impostos? Ou vivemos angustiados, sem entendermos a inconsistência dos atos dos homens e suas consequentes mazelas? Sem compreender o porque de mesmo tendo tanto, sentimos um profundo vazio? Este todo que temos e que ainda é muito pouco, pelo pouco que intuímos necessitar realmente.

Há tanta intolerância, tanto descaso pela vida humana, tanta preocupação com o próprio bem estar que não medimos as consequências dos atos na busca desenfreada pela ganância e pelo lucro. Mas não compartilhamos todos da mesma terra, do mesmo sangue? Não deveríamos caminhar juntos ao invés de correr atabalhoadamente batendo cabeças? Fatos que nos levam a considerar a possibilidade de caminharmos rumo a autodestruição, sem nenhum controle próprio, como meros passageiros em um carro sem volante e sem freios descendo ladeira abaixo.

Não há nada na história do homem que se compare ao modo como a consciência é controlada hoje. A ciência moderna e o capital dizem que não há tempo para se perder. Tudo é racional e prático. E o sagrado; e o divino que se esconde em nós; e os sonhos grandes e pequenos; e os devaneios de quem deseja tão somente amar e ser amado? São futilidades. A menos que se possam monetizá-los de alguma forma, não tem valor algum. Claro, sonhos não enchem barriga... mas tampouco o dinheiro enche a alma com aquilo que é realmente essencial. Não poderá existir então um meio termo? Uma forma de nos alimentarmos de proteínas para o corpo e porções de alegria para nosso espírito?

Tudo é fictício do prisma em que enxergamos hoje. Todas as pessoas e acontecimentos históricos, os tratados, as convenções, os ritos de passagem e os gritos de falsa liberdade ... pura efemeridade. A que se entender que isto não é uma brincadeira com o sofrimento de quem crê apenas no substancial da matéria. A realidade acachapante do cotidiano que se vivencia é prova disto. Vivemos amordaçados e vendados, e isto é cruel. Mas se quisermos um dia sermos livres para um julgamento íntimo renovador, devemos nos ater às leis próprias do universo e sabermos do imenso potencial de mudança, isto é, sabermos de nós, com nossas infintas possibilidades.

É por isso que existimos. E há isso nos apegamos. No desejo de acreditar nas pessoas. De confiar. E é assim que muitas vezes nos machucamos. Na constatação do entendimento de que só acreditar não basta – precisamos querer ver a verdade, descerrar os véus! E as vezes precisamos deixar as pessoas irem embora, muitas vezes para nunca mais voltarem. Não adianta querer segurar aquilo que não nos compete suplantar. Isto só irá nos atrasar e fazer com o outro se atrase. Porque inevitavelmente um dia todos iremos “ver”. Tudo é questão de tempo. O eterno tempo. Mas existem certas coisas que não podem ser ensinadas. Cada um precisa aprender por si. Só assim podem acreditar. Talvez, em um momento em que tenham mais passado do que futuro, entendam. Mas aí já pode ser tarde demais para se caminhar juntos. As estradas podem conduzir ao mesmo lugar, mas as rotas são diferentes.

Porém, contradizendo todo o pessimismo que possa transparecer, sinto que uma mudança parece estar ocorrendo, e ela está longe da ganância, do materialismo, do ego e do lucro. Alguns já estão reconhecendo outras dimensões da existência, muito mais importantes do que acumular riquezas materiais e bens. Mas seremos suficientes para mudarmos os rumos dos acontecimentos? Acredito que quando se mudar essa perspectiva de vida em uma escala maior, a mudança será total. E para mudar, precisamos começar a transformar nosso interior.

Todos, em maior ou menor grau, sonhamos com viagens ao Universo de nosso mundo interior. O misterioso caminho que nos conduz as reentrâncias sombrias de nosso interior. Ainda que os caminhos se mostrem falhos; sedentos de sangue e sacrifício; teremos que nos dispor a entregar o melhor de nós mesmos; seguindo e sobrepujando as maiores crueldades em favor do insano triunfo da alma humana sobre a miséria do homem. Aceitando em nosso foro íntimo todas as considerações erradas acerca da vida que se mostram nos seres que são da nossa própria espécie; a banalidade do racionalismo científico perante as questões mais profundas do Ser e o ostracismo barroco dos rituais de massa. Porque grande é a vitória do acreditar... de sua vitória sobre a falsidade, o descrer e a intolerância. E mesmo tendo sangue em nossas mãos, é preciso buscar a pureza compartilhada que possa nos dar um novo conceito de vida, longe dos rancores e violências.

Penso que os nossos oito minutos estão se esgotando. Teremos que agir agora! Talvez, se estivermos coadunados com o Universo, esta destruição que se avizinha seja apenas a porta para uma nova consciência global de paz e prosperidade. Enquanto isso, por via das dúvidas, vou tomar um sorvete, andar nu, declamar um pequeno poema, abraçar um estranho e lhe dizer coisas que valham, contemplar o entardecer com os olhos do espírito, não reclamar e nem chorar, beijar o mais que possa alguém que tenha em profundidade o amor como condição de vida. Assim, não importa o que aconteça, poderei dizer: Tudo, absolutamente tudo, valeu a pena...

(R. Moran)
da série: Coisas a dizer (para quem foi e quem vem depois)
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quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Flores não tão rubras sobre a neve


Flores não tão rubras sobre a neve     

 (da série: Coisas a dizer...)


            Flores trêmulas, descoloridas
            resistem o que podem ao frio
            sorvendo sôfregas fios de sol
            no cabedal do ocaso da estação.
           
            Com humilde melancolia
            vão despojando pétalas rubras
            no branco neve em halos de sangue
            escorridos dos olhos de nuvem.

            Sonolentas, se deixam levar
            ao embalo do vento canção de ninar
            dos flocos que caem em liturgia
            e entorpecem, entontecem, endoidam.

            Aos poucos adormecem
            sonhando com o sol numa cadeira
            abstração de quem pensa na morte
            fim de um ciclo, último fio do rito.

            Sem ter cheiro de chuva, cascas de fruta madura
            zumbido de abelhas, espraiados tons de areia
            ilhas em tapetes de cores, borboletas multicolores
            noites claras lunares, meninos gritando parlendas
            nervuras de trepadeiras, o vivaz limo da madeira
            um besouro solto no chão, a fugaz lagartixa no murro
            a pedra que brilha de lume, prisma etéreo de lua
            da lua zombeira, dos pés esticados da macieira
            do som de realejo grilo, corujas e uivos de cães
            na ausência do sol despertar, caladas de gelo
            se deixam quedar em inerte harmonia
            ao findar de tardes silenciosas e vazias.
                       
            Pois que então sucumbem, inteiras
            em talos raquíticos de altiva renúncia
            quanto mais se despedaçam em cacos
            mais poéticas, inteiras e serenas.
           
            Até que nada reste, só a semente
            para que em um novo despertar vindouro
            saibam florir para não deixar mais
            de estamparem no rosto da primavera
            a esperança de quem hoje espera e dorme em agonia.
           

            (Perguntas então e digo junto:
            - Seremos flores?)
           
            (R. Moran)
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quinta-feira, 5 de julho de 2012

Do outro lada da tempestade


    Do outro lado da tempestade
    (da série: Coisas a dizer...)

“Já não sinto amor, nem dor, já não sinto nada
Socorro, alguém me dê um coração
Que esse já não bate, nem apanha
Por favor, uma emoção pequena
Qualquer coisa
Qualquer coisa que se sinta
Em tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva...”

Arnaldo Antunes


Quem és para assumir tantas formas? O que se desvela por trás da dor, por trás do medo? O que somos neste jogo; insano; de vida e de morte? Tua natureza, teus tons, tuas cores... Tua fonte de tudo que está por nascer. Tua morte, que tudo capta e recapta.



Tudo se resume em ultrapassar a linha, o ponto crítico. O fim é o princípio de tudo. E no meio de tudo estou eu, debruçado sobre a amurada de proa envolto em águas encapeladas e selvagens, vivenciando mais uma tempestade. Que perdura há vários dias. Onde tudo que posso fazer é esperar. E espero a glória. A misericórdia. A Paz. Verdade. Espero que alguém traga calma ao meu espírito, entendimento, coragem para prosseguir. O coração satisfeito. Mas o Tudo que tenho agora são nuvens escuras, e a névoa que se precipita sobre mim. Das ondas que se quebram fragorosas sob o casco, fustigando incessantemente.


Você é do bem? É gentil? Uma pessoa correta? Você se guia por isso? É amada? Saiba que não irá sofrer menos por causa de tua bondade. Saiba que eu também não. Mas podemos nos fortalecer mutuamente, amenizar a dor, limparmos as feridas e calarmos o pranto... seguirmos.



Quem decide quem irá sofrer? Quem decide quem irá sorrir? Quem dirige este grande teatro da vida? Não entendo esse personagem... o homem. É incrível como sei pouco sobre esse papel exercido pela humanidade. Talvez descubra um dia. Entender ao menos sua natureza primária, seus anseios básicos que os levam a se comportar desta ou de tal maneira ajudaria. E quem sabe assim conseguir compreender porque todos têm possibilidades das quais; mesmo que inconscientes; vislumbram, e no entanto se recusam a ver, a procurar. Mas se aferram em sombras e solidão; a autoestima exacerbada sendo o inimigo real e a fonte da miséria do homem. Renunciando ao conhecimento silencioso pelo mundo da razão. E quanto mais se agarram ao mundo da razão, mais efêmero se torna o misterioso e o mágico da vida. Por hora, há um leve consolo em levantar a cabeça ao céu profundo, de ver a noite riscada pelos raios fosforescentes através dos olhos do espírito. O que ameniza um pouco a minha falta de compreensão.



O amor é um dom ou uma maldição? Ele é lenitivo ou um castigo? De onde ele vem? Se eu não te encontrar nesta vida, deixe-me ao menos sentir tua falta. Saber de tua existência...



Me questiono se a vida sob um luar límpido é apenas um sonho. O diabo realmente existe e as pessoas são realmente más? Acho que estão apenas equivocadas. Penso que tudo é uma questão de percepção, e não acredito que exista bem ou mal. No fundo tudo é uma coisa só. O mal é apenas o bem em sua forma latente. Sei que a percepção do que vejo, escuto, toco, cheiro e provo é apenas uma visão do mundo antes do mundo. E os olhos... os olhos são bem mais do que um mero sentido. Ver está em enxergar além das aparências. E não se permitir ficar louco diante das visões do incognoscível. Daquilo que ainda não podemos entender. Mas apenas o fato de ver nos dá a certeza de que exista algo além de nossa compreensão. E deveria bastar para acreditarmos. Para nos instigar a persistir em busca de respostas. Mas somos incongruentes, e somos falhos em nossa concepção de vida. Acreditamos na força do átomo, na lei da gravidade, no obtuso do consumismo, do Poder em ter, na praticidade dos atos. Tudo futilidade. Porque não acreditamos no essencial...



Que mundo solitário! Um dia me perguntaram: “Você sente solidão?” e respondi: “Apenas quando estou cercado de gente. Apenas de gente...”



Sinto a força do grito dentro de mim. Quero gritar que estou só, só, só... Mas de que adianta? Quem irá querer escutar? Não há expectativas se não existir a esperança. E este é um sentimento do qual ainda não nos apropriamos devidamente, ainda que se ouça muito falar. Mas se fala em bocas vazias, se cala em almas rasas que se recusam a aprofundar, a tocar e serem tocadas. O que significamos para quem não nos conhece? Nada. E mesmo quando conhecem, significamos quase nada. Porque somos egoístas, somos centrados apenas em nós, no nosso ego. Galileu, Copérnico e todos outros estiveram errados: o homem é o centro do Universo! Cada homem sendo seu próprio universo; assim acreditam. E os outros... os outros são meros coadjuvantes neste cenário. Por isso a pouca importância que damos à vida como um Todo, ao nosso semelhante.


Você ainda acredita na beleza divina? Como manter a integridade? Como fazer para não nos esfacelarmos? Ainda vejo uma centelha dentro de ti. Existe esperança, quero acreditar...



Quando um homem está ferido se pensa que não há nada além de dor. Que a morte tem a palavra final. E que ela está rindo dele. Eu olho além da dor e vejo a glória. A redenção. Provo do próprio sangue e vejo algo sorrindo através de mim. Porque afinal tudo é uma mentira. Tudo que ouvimos e vemos dos homens. É tanta coisa abjeta! Por isso vivem numa prisão. Uma enorme prisão ambulante. E tudo que querem é que estejamos mortos em vida. Ou dentro da mentira deles. E aí só nos resta fazer uma coisa: precisamos ultrapassar a linha, acharmos algo dentro de nós mesmos. Um caminho, uma rota, um oceano para navegar... longe de toda essa insanidade, essa guerra. Não se trata de uma fuga. É antes um ato extremo de desespero, de sobrevivência. É nossa tentativa de nos mantermos íntegros. De não nos contaminarmos mais com a amargura, toda a dor e todo esse sangue que escorre pelas mãos dos homens.



Você está comigo? Não me deixes perder. Não me deixes trair meus princípios. Deposito minha fé em ti...



Oh, minh'alma querida, queria lhe explicar que algo se transforma dentro de nós com toda essa guerra, dor, todo esse sangue, sujeira e escuridão. Existe um amargo no peito, uma acidez nas veias que corroí lentamente se permitimos aos homens ditarem nossos rumos. Somos envenenados por todos aqueles que nos maltratam, sem ter um porquê que possa ser entendido ou que faça sentido. Não importa o quanto nos preparamos, o quão cuidadosos sejamos na condução dos passos, é uma questão de princípios; ou a falta deles; se somos ou não irremediavelmente entorpecidos pelo desacreditar, pelo desamor. E uma questão de sorte, eu diria, se feridos de morte conseguimos sobreviver. Por isso luto para me manter inteiro... por ti. Como te alcançar? Ainda não sei... talvez ainda não seja o tempo. Será bom chegar depois de um longo navegar em um lar, e me emocionar com um pequeno gesto, uma palavra, um cheiro, um sorriso. E talvez então lhe conte uma estória que se levanta das profundezas, que fale sobre um marinheiro que foi empurrado à margem do mundo, que tanto é um homem bom quanto um facínora, mas que nele se revela sua alma interior, com todas as qualidades e defeitos. Contarei quantas voltas ele deu ao mundo em busca de seu porto. Então, como numa liturgia em que ninguém precise ser iniciado, falaremos com os olhos e o coração além do significado das palavras e das frases. Um olhar, e minha vida estará em tuas mãos...


Venha comigo agora. Se eu chegar primeiro, te espero lá. Do outro lado da tempestade, além das nuvens escuras...





(R. Moran)
  • todos os direitos reservados ©

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Sutilezas

Sutilezas
(da série: Coisas a dizer...)







Alguns dizem que somos diferentes dos animais. Porque podemos fazer uma coisa que eles não podem fazer: matar a distância. Não queria que assim fosse... porque implica dizer que os animais são muito melhores que nós. E excludentes do reino animal; dito irracional; devemos ser portanto uma outra espécie de animal: a besta-fera. Que não só mata a distância, mas perversamente, mata de perto, mata de cima, mata de baixo, mata matado, mata morrido, mata queimado, de chão deitado, de caso pensado, mata de mentiras, de subterfúgios, de degredo, de abandono, mata de medo, de corrupção, de concussão, de bem e de mal, de maltrato emocional.
A morte e seu sentimento começa no nascimento, quando expulsos do concupiscente abrigo uterino. Ali choramos – de tal forma conscientes de nossa errática condição humana – sabedores que somos do caminho árduo à frente. Sentimos o peito demasiadamente oprimido e escuro. Falta luz no principiar da vida. O que não quer dizer que à adquirimos em seu decorrer. Deveríamos, mas não o fazemos em nossa maioria por sermos ridículos. Temos um corpo, mas as almas que nele residem não são duas, nem três, nem dez, mas incontáveis almas desesperadas em eterno conflito. O homem é um cacho de faces, de múltiplas facetas, de trama urdida em muitos fios. As antigas sabedorias sabem muito bem disso. Muito se estudou e muito se aprendeu sobre a ilusão da personalidade. Sombrio; ora divertido; multíplice no seu insistente jogo da humanidade, o homem caminha, insano. Estrada da dualidade e do caos. De encruzilhadas, escolhas e decisões. Indecisas em sua maior parte. Erradas por atitudes impensadas e gestos vazios, inúmeras e inúmeras vezes. Até que aprendamos a acertar, a não dar tantas voltas. Mas isto leva tempo.
A uns poucos foi dado, após milhares de anos e estudos, a descoberta da ilusão da condição humana, enquanto que milhares; a maioria da consciência mundana que transige nesta nave Terra; se dão a tanto trabalho para custodiar e fortalecer a mesma ilusão que deveríamos acabar de vez, quando não muito restringir gradualmente. Entendo que esta maioria busque ascender econômica e socialmente falando, em busca de uma vida melhor e de serem felizes. Mas por que então essa felicidade parece não chegar nunca? Quanto mais temos mais precisamos ter para alcançarmos um patamar que só fica cada dia mais longe. É o cachorro correndo atrás do próprio rabo. Deixamos há muito valores importantes para trás e que hoje são tratados como abstratos pela acachapante imposição da realidade prática estabelecida. E que se mostra falida, ainda que relutem em aceitar que algo está errado. Não entendem. Um dia me perguntaram: “Por que não entra no jogo? Há oportunidades e valores para serem conquistados?” Não entendem que têm valor para eles e não conseguem entender porque não têm valor para mim. Status, revolução, drogas, capitalismo, salão de beleza, carro esporte, montblanc, moet chandon, lugar na primeira fila e tudo o mais. Busco ser um ser humano; simples; e é só o que quero ser.
Por isso espero uma mudança. Não que queira uma mudança em massa, porque toda mudança em massa provoca loucura em massa. Há que se considerar, como dito por Nelson Rodrigues, que toda unanimidade é burra. Assim, mesmo à duras penas, prefiro uma mudança sutil e gradual. O que exaspera é a perspectiva de que isso parece estar ocorrendo no sentido contrário. Onde todos procuram respostas onde não existe nenhuma. Porque estão olhando para o lado errado. E existe lado certo? Não, eis o problema. Não existe lado nenhum, mas sim o centro, o interior abstrato de cada um onde se depositam todas as respostas. É uma jornada pessoal, e não é fácil empreendê-la. Mas as pessoas não sabem como viver e o que fazer, e acham que podem descobrir se forem com a maioria desesperada. As pessoas estão muito perdidas. E não quero isso para ninguém. Porque não fomos feitos para sermos bois em fila indo pro matadouro. Ciente que não o fariam espontaneamente, ainda que na sua limitada condição animal. Os bois assim agem porque são direcionados por um predador maior e não têm discernimento do fim que os aguarda ao término da fila. E então se dá o paradoxo.
Alguns podem dizer que somos iguais aos animais. Porque fazemos a mesma coisa que à eles só resta fazer incondicionalmente: caminhar para a morte. Cônscios ou não é mera conjectura individual, pode-se dizer. Queria acreditar que não, já que não temos predadores... o que implica aceitar que somos nossos próprios predadores. E não seremos? Senão vejamos: dominamos o fogo, criamos raízes, já fomos a lua, penetramos no núcleo do átomo; desenvolvemos obras de engenharia e cavamos fosso em busca de água; lançamos sondas espaciais e orbitamos planetas à distância; miniaturizamos o que já era mínimo e cada vez é menor; aceleramos o tempo; encurtamos o espaço; ampliamos nossos conhecimentos sobre a mente para descobrirmos que sabemos muito pouco; e se, quando pouco nos jogam num vazio; quando muito nos chamam de loucos. E damos mostras de que temos capacidades ainda maiores para cometermos atrocidades, vilipêndios e barbáries. É preciso um despertar para um novo estado de consciência, para uma nova realidade, menos fútil, menos aparente e mais sutil.
Eu acredito que o despertar possa acontecer a qualquer um, a qualquer hora, em qualquer lugar. Aprendi isso quando era pequeno. E aprendi também a lidar com coisas estranhas. Porque para mim o Mundo é um lugar mágico. E se pudermos acordar para o real, veremos coisas assombrosas e nenhuma maldade se justificará mais. Nenhuma disputa por poder ou posses fará sentido. As vezes sinto vontade de ir para a rua e gritar para que todos acordem. Mas o homem continua dormindo em seu sonho enevoado de sombras e destempero. Eu ainda não entendo. Na verdade, acho que nunca vou entender. Como seres humanos dito civilizados fazem o que fazem com o seu quintal, sua casa, sua cidade, seu país, seu mundo, seu semelhante? Talvez a civilização esteja ultrapassada. Talvez tenha perdido o compasso. Em nome da praticidade, renunciou ao abstrato, e com isso se afastou do cerne da questão espiritual. Que não pode ser tratada pela pífia e limitada racionalidade humana.
Gostaria de poder me comunicar melhor com meus semelhantes. Falar de coisas simples; da beleza na simplicidade; falar de momentos ímpares, de olhares pares; do riso fácil e da alegria que invade o cair da tarde. Me comunico apenas em um certo nível. Por minha própria incapacidade de me expressar. Mas é que nem tudo se conjectura em palavras tão facilmente quanto gostaríamos. E descobri que não dá para falar nada que não seja “a sério” com a grande maioria. Não entenderiam. Porque todos são muito sérios. Uns acham que vão para o inferno se agirem diferente. E não posso fazer nada para que entendam que não necessita ser desta forma. Não há comunicação nestes níveis.
Temos que adentrar no campo das sutilezas. Na forma e na essência. Temos que querer perceber, temos que ter um olhar além. Temos que duvidar, questionar, perguntar; sem medo de opinar e sermos expostos; de revelar-nos, desobscurecermos, clarearmos a fonte, romper paredes, sairmos do labirinto, da boca da caverna que nos tolhe, e nos prende, sufoca e nos mata. Aos poucos, morrendo assim. Mas chega de falar de morte. Falemos da vida. Porque é disso que estamos falando o tempo todo. Não existe essa dualidade. Por isso somos ridículos. Não percebemos que tudo que morre é para nascer de novo, e de novo e de novo. Tanto quanto for preciso até não ser preciso mais. Há uma evolução em todo o processo, ainda que se mostre lento como o rio que corre para o mar. Por baixo, bem por baixo, percebe-se a correnteza que inexorável vai ganhando força. Somos fadados ao sucesso, somos seres luminosos. Que alguém nos escute, por favor...

Podem dizer que no fundo quero o mesmo que todos. Não seria verdade. Não preciso de tanto poder ou de tanto dinheiro. Posso ficar aqui neste meu caminho, desde que seguindo em frente. Não preciso ser presidente do país ou membro da diretoria. Não preciso subir dessa forma, fazer essa escalada invertida para longe de mim. Está tudo aqui agora, comigo. Ou quase tudo... o que falta, então?
Quero ser Eu em plenitude e encontrar um lugar onde possa manter o equilíbrio e a clareza dentro de mim mesmo. Não como Hamlet: “Ser ou não ser.” Apenas Ser. Onde exista alguém que não entenda porque sou assim, mas queira que eu seja mesmo assim. Onde este alguém não seja apenas uma metade, mas o complemento do Todo em uma unidade. Para que possamos ter o riso fácil de quem não tem mais pressa de chegar. Na sutileza do olhar, do encontro, da magia, das respostas interiores emanadas do calor das bocas silentes, do cair da tarde, do mistério da noite... A noite eterna, que a mim invade agora. Sou notívago, já disse?
(R. Moran)
* todos os direitos reservados ©


sexta-feira, 8 de junho de 2012

Considerações sobre o viver

Considerações sobre o viver

“Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar....”




Terra. Ainda estou em terra. Toda hora acho que vou acordar de volta ao mar. Com o balanço das ondas e o cheiro peculiar de maresia a me inundar. Mas acordo e não há nada. Já estou aqui há alguns dias, esperando por meu navio. Se recuperando nos estaleiros de Aveiro após a grande batalha da última tempestade. E eu amolecendo. Cada minuto que fico em terra, fico mais fraco. Toda vez que olho ao redor, a sensação de aprisionamento aumenta. Que corredores me cercam? Que paredes me apertam nesta falsa hospedagem terrena? Penso que estou com a síndrome do marinheiro. Meu cérebro em conflito com meu corpo. Mas isto não é novidade. Ou não deveria ser.

Um sábio uma vez disse que repartir o pão com o inimigo é um gesto genuíno de um homem civilizado. E já que aqui estou, hoje quero que todos sejamos civilizados e que possamos repartir o pão. Que este tempo seja proveitoso de alguma forma. E seja porque cheguei até aqui; ou por assim ter me tornado por força de grandes esforços em entender a humanidade; proponho uma “negociação”. Negociação é uma discussão ou conferência entre inimigos sobre os termos da trégua. Não que os homens sejam meus inimigos; eu próprio um ser humano. Mas façamos um armistício só por hoje, baixemos a guarda, recolhamos as armas e apenas sentemos ao redor desta mesa e falemos sobre as coisas que realmente importam. Não sobre dinheiro, carreira ou a roupa cara sob os holofotes da vitrine. Falemos sobre a alma, sobre nossas dores e como resolver nossos conflitos, por exemplo.

Existe um conflito dentro de cada coração humano, entre o racional e o irracional, entre o bem e o mal. E nem sempre o bem triunfa num primeiro momento. As vezes, o lado escuro supera o que se convencionou chamar de “os melhores anjos de nossa natureza”. O lado escuro da Lua, do homem primitivo que habita em todos nós. Os homens rejeitam seus profetas e os executam, mas amam seus mártires e aqueles que executaram. Então qual é a diferença entre um profeta e um mártir? Nenhuma, já que todos acabam mortos. O mundo carrega tanta beleza quanto terror em suas entranhas, e o mais terrível é o homem. É o único entre as espécies que mata seu semelhante; que faz dele seu inimigo. Conhecemos o inimigo e não aprendemos nada sobre ele. Porque não conhecemos nem a nós mesmos. Precisamos entender que nós não caminhamos no escuro. Nós somos o escuro. Há coisas que os homens podem fazer que são decepcionantes para o espírito. Eu procuro aprender algumas coisas sobre mim e os homens. Sei que existem coisas que até podemos conciliar com Deus, mas conosco mesmo jamais. E a pior coisa que o ser humano pode experimentar não é ter seu corpo acabado, mas sua alma despedaçada.

Por isso devemos ter cuidado com as nossas ações. Mesmo as mais triviais. Devemos cuidar com quem embarca em nossos navios. Mesmo os mais aparentemente inofensivos. Que o ser humano é dotado de uma capacidade sórdida de causar danos. De maltratar sem outro motivo que não seja machucar. Mesmo quando dizem querer o bem. Principalmente quando dizem não querer magoar. Estes são os que mais mágoas provocam. Minha última tempestade é prova disso.

Não sei se, ou como está me vendo. Tristeza? Pena? Desprezo? Amor? Talvez indiferença. Acho que já sabe que não sou muito crente nos homens. Optei há muito por depositar minha fé em outro lugar. Nas coisas simples, no navegar pelo desconhecido, no por do sol além, no movimento da natureza, na natureza do amor. Por que os homens amam a dor? Por que se apegam ao sofrimento? E que desejos os motivam, os fazem viver? Eu gostaria de dizer que seria pelo desejo de ver o bem triunfando sobre o mal. Mas na verdade, entre uma grande massa de decrépitos, isso não parece se aplicar. Não sabem o que querem, para onde vão, suas pernas não sabem se estão a cavalo ou a pé, se estão caminhando vendo à frente ou ficando cegos. De qualquer forma, estão batendo as mãos e os pés, gritando e lastimando, seguindo e cometendo os mesmos erros de sempre e sem se perguntarem por um momento sequer o porquê. E quanto a nós? E quanto aos que acreditam em sonhos e poesias? Nos chamam de loucos, enquanto que eles, os certos, continuam a fazer bombas.


Existe uma lenda da tribo Hmong sobre uma águia gigante que se propõe a levar dois guerreiros até uma lua feita de ouro. No caminho os homens começam a se desentender e se tornam gananciosos. Finalmente lutam e um mata o outro, e então a águia come o sobrevivente em desgosto. Todas as fábulas Hmong são sobre a futilidade do ser humano.

Somos homens ocos, somos homens estofados, a cabeça cheia de palha. Eis nossa estirpe!Nossas vozes secas, quando sussurramos juntos, silenciosas e insignificantes como o rumor do vento nas folhas. Nossos pensamentos em formatos disformes, nossas sombras sem cor. Força paralisada, que gesticula sem se mexer na inutilidade do vazio.

Por isso vivemos em um círculo vicioso. Nossos pensamentos alimentam nossos medos. Nossos medos alimentam nosso instinto de sobrevivência. O instinto por sua vez alimenta nossa belicosidade pela luta em viver. A luta nos torna mais duros e nos faz ver em cada ser humano que se aproxima um inimigo. A visão deturpada alimenta nossos pensamentos, que tornam a alimentar nossos medos. Que nos vendam. Que nos impedem de enxergar o real. O que realmente importa.

Para romper este círculo vicioso seria preciso que nos despíssemos das vendas. Seria preciso querer ir além da boca da caverna. No mito da caverna de Platão, as pessoas que viviam na caverna apenas conheciam o que havia dentro daquelas paredes de rocha. Além da boca da caverna era o fim do mundo. Até que um dia um deles escapou de lá. Ele saiu e viu o mundo real; o sol, as cores, a vida abundante; voltou e contou aos outros. Então ele foi surrado, porque não acreditaram. “Não pode ser” - disseram. E por medo se recusaram a ir lá fora para verem o que havia. Sei que muitos; a maioria; não está pronta para ver o que há lá “fora”. Mas é preciso começarmos ao menos questionar. É preciso querer ver.

O desafio que agora enfrentamos é reconhecer que as respostas para as questões prioritárias à nossa vida podem estar na nossa frente. E não as vemos pela cegueira temporal que parece acometer grande parte dos homens. 


É pouco provável achar palavras certas para descrever o que é importante, para aqueles que não sabem o que é o amor. O amor verdadeiro. O amor tem várias faces e devemos conhecê-las todas, principalmente a que envolve a história entre o homem e a mulher. Mas temos medo de vivê-lo em plenitude. Acreditamos que o amor é finito, e portanto tende a morrer.

Não devemos temer o amor como se ele fosse um inimigo. Como se dele resultassem coisas ruins e desagradáveis. Isto é fruto único e exclusivo dos homens e da sua visão deturpada da vida. Como se o amor fosse uma guerra a ser travada. Como se houvessem vencedores neste embate insano. Falsa é a ostentação do vitorioso. Vazio nosso orgulho de vida. Para os que partiram de nossas vidas não há inferno ou céu, apenas um vazio. Que não pode ser preenchido até que cada um aprenda realmente o que é amar.

Muitas vezes o poder do amor pode ser maquiado com a retórica. Como um manequim em vitrine de loja posicionado sob as falsas luzes brilhantes da racionalidade mundana. Como se o amor fosse algo que pudesse ser vendido em uma boutique de luxo, ao invés de simplesmente ofertado e partilhado gratuitamente.

Na nossa vida somos capazes de nos maravilhar com inúmeras coisas que vemos. Ou pensamos ver. Enquanto alguns; como os cientistas; buscaram ver coisas cada vez menores, outros; como os astrônomos; buscaram ver o que havia cada vez mais longe, céu noturno adentro, indo e voltando no espaço e no tempo. Mas talvez o maior mistério não seja o pequeno ou o grande. Somos nós, em nosso interior. E ao olharmos para dentro de nós, seríamos capazes ao menos de nos reconhecer-nos? E se pudéssemos, realmente nos conheceríamos? O que diríamos a nós mesmos? O que aprenderíamos de nós? O que realmente gostaríamos de ver se pudéssemos parar diante de nós mesmos e nos olhar? Seríamos capazes de nos amar? Porque só podemos dar amor se o temos suficiente dentro de nós, e se nos amamos com tudo o que temos de bom e de ruim. Se amamos a nossa vida, o nosso viver, a despeito de como ele seja.

Mas as coisas melhorarão. O sol nascerá em um novo dia sobre o oceano. Sei que para muitos pode não parecer, mas esse amanhecer chegará. Há esperança. Talvez fale como um profeta. Que espera não ser surrado ou executado por aqueles que não acreditam. E aí penso que todo o sofrimento apercebido possa ter valido a pena. Porque não consigo pensar em um profeta; que valha algo; que não tenha sofrido. E também não consigo pensar em um que não tenha tido amor. Um imenso amor próprio, pela vida e pelo seu semelhante.

Eu tenho sonhos. Ontem eu tive um sonho. No sonho eu chegava até você e nenhuma palavra foi dita entre nós. Vinha de longo navegar, uma vida de labuta e sangue. Quando trevas e atribulações eram uma constante. E tudo; até aquele ponto; serviu para nos levar ao encontro e sabíamos haver pouco risco envolvido. Havia a sensação de um porto sempre seguro e perene. Então você disse: “Pode entrar, lhe darei abrigo das tempestades.” E ali sabia haver encontrado algo realmente importante.


Ah! São coisas da vida, daquilo que conta, daquilo que fica.


(Por hora me contento apenas em estar de volta ao mar...)


(R. Moran)
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sábado, 2 de junho de 2012

Antes de partir

Antes de partir...(e a vida se repete)



Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte,

mal algum eu temeria, porque tu estás comigo...



Agora lembro. Dos risos fáceis e puros. Do mostrar a mancha roxa esculpida no corpo e eu rindo também porque te queria rindo; feliz. Apesar da rudeza do maxilar e dos entrejeitos de boca, gostava de ver que por vezes era criança e principalmente por que agora me lembro de levantar a cabeça do travesseiro para observar nossos movimentos sincronizados no olhar. Gostava do dizer nestas horas mesmo quando não dizíamos nada, apenas nos assustávamos no mirar. De saber ou pensar em saber do quanto era grato o querer. E quando dizíamos não eram letras que saltavam da boca, mas sentidos sentimentos que se traduziam em algo que era amor, ainda que fizéssemos força para negar. De tocar teus cabelos lustrosos que me faziam pensar numa noite eterna emaranhada de brilhos de Lua, misturando-os até que se embaraçassem entrededos em novelos de sonhos. Depois os passos que foram dados sem que eu pedisse; sem entreatos vazios mas intensos; para que eu acreditasse que era possível ser; das luzes que víamos e ríamos sem que as mãos pudessem segurar o que sequer se toca; só se sente e vive.

Agora digo. Das palavras doces e das amargas. É preciso que eu tente de todas as maneiras dizer; é o que eu estou fazendo; minha última tentativa. Estou tentando dizer sem conseguir, por favor, me ajuda, senão daqui a pouco não será possível, senão vai ser muito tarde. E é por isso que estou rouco agora. Não, não é do som da garganta que fala que falo. É de uma outra voz, da que vem de dentro, entende? Por favor, não ria ou se entedie julgando pensando que me faço de vítima. Não é preciso; deixa eu te dizer antes que eu parta ou morra, ou ambos, que partir e morrer é apenas uma questão de vista. Ou é longitude ou profundidade.

No princípio era leve, havia leveza e era o que querias então me bastava também. Por que então quis que se tornasse complexo dizendo a mim que era pra sempre? Por que fazia juras que depois negavas como quem nega a própria imagem reflexa? Por que uma hora era poesia e na outra covardia? Não consigo compreender como penetrei na teia sem ter consciência, sem policiamento; eu que confiava tanto em mim e que me dizia que tudo estava sobre controle. Para isso basta saber que cresceu dentro de mim de um jeito totalmente insuspeitado, como lunação que transita de nova para crescente. Era só uma pequena luz de luar, mas que em algum momento expandiu em alguma luminescência enorme; de Lua cheia, de estrela Ursa, maior ou menor tanto faz; e me obrigou a abrir as janelas da alma, depois as portas; todas as portas; para então derrubar as paredes internas do que sou e meu telhado de sonhar para deixar que tua luz se expandisse mais do que além. Era preciso para que crescesse livremente, eu não podia tolhê-la, compreendi a tempo que você precisava de muito espaço livre e assim fiz, não pense que me arrependo, apenas que para isso tive que me desfazer de toda segurança que eram as janelas, paredes e telhado de minha casa– meu templo que me dava guarida.

Sei então de acordar uma noite, só e nu, abrir os olhos para um teto de espaços vazios e tocar um lugar vazio na cama. E por não encontrar nada, procurei um cigarro, depois uma chama e depois fumei odiando cada trago, querendo que cada um me devorasse e me queimasse. Pois que fogo se trata com fogo. Depois me olhar no peito e me dar conta de um simples cabo assomando, sem floreios ou marcas que o valham. E sentir uma fria lâmina congelando por dentro o que antes abrasava em erupção solar. Agora sei e assusta-me a certeza súbita de que nada poderia fazer para evitar os acontecimentos, senão aceitá-los como se aceitam tantas coisas na vida. A morte inclusive.

Agora sangro. Não que seja visível como a luz espraiada que se desprende do abajur enquanto desenho estas linhas. É interno, é silencioso o sangrar... e intensamente doloroso. Verte cálido dentro do peito; me fazendo sentir fome e sede; me entontece; inunda órgãos e espaços interiores, ocupa todas as brechas e frestas entreossos. O cabo retirado do peito mas a lâmina ainda dentro; incólume e oculta de todos; maltratando e matando aos poucos. No espanto da noite estou só e não tenho para quem gritar minha dor. Ninguém para dizer de meu ferimento, minhas mazelas; ninguém para compartilhar minha fome de uma alma, minha sede de saliva, meus desencontros; ninguém para suprir a falta de amparo ou um quilate de amor. Nem ao menos uma parede para me sustentar.

Agora choro. Por isso agora choro. Não que as lágrimas escorram pelas faces sulcadas. São secas e quentes e não lavam ou refrescam a alma como dizem os poetas. São lágrimas de fogo que brotam dos olhos como estrelas cadentes e que queimam no cair tardio dessa madrugada. E ao olhar de dentro da alma pela janela dos olhos me vejo parado no meio do quarto olhando para fora de mim. Olhando para fora e repetindo: onde foi que me perderam e abandonaram? Por que o bicho-papão não saí de cima do telhado e desce para me engolir? Talvez no seu mastigar haja lenitivo para a dor pois; ainda que doa; doí menos do que sangrarmorrerassimaospoucos. Pelo menos deve ser rápido, penso enquanto com a mão toco o peito e sinto o farfalhar de uma sombra deitada rindo dizendo que não existe bicho-papão; não para mim. Nem telhado tenho mais. Que é bom que eu sangre para que se vingue todos que maltrataram, todos que jogaram pedras. Terei eu jogado pedra na cruz? Mas em qual cruz? Em quantas cruzes? Ainda assim, havia a opção de não ser por estas mãos que sangrasse. Não precisava ser. Todas as mãos seriam bem-vindas; pálidas, tortas; direitas ou esquerdas; negras, brancas, morenas; de pianista ou de equilátero ferrífero; mãos de jade ou de jasmim; de ébano ou Danúbio azul; de sombras; de cores; do lado brilhante do dia ou do lado escuro da Lua. Mas não de mãos que tomaram meu Eu, de mãos onde depositei pleno de esperanças minh'alma machucada para que fosse observada, não curada. Que curar se curaria sozinha, bastando a paciência de se esperar. Mas que a vida pode não ter pressa, mas que a morte sim. Quando se quer a morte daquilo que afronta os que não acreditam que – a despeito de – é possível. Onde só se vê problemas, querências de dizer não, negação da vida e do próprio amor. E que não ouses levantar a voz, não queiras dizer o que sentes, pois que somos fracos e farsantes vítimas aos olhos de. Uns pobres coitados, dignos de pena.

Por isso, antes que eu morra, parto. E lembro, digo, sangro e choro... antes que eu parta. Para que eu não sobrecarregue mais meus porões, para que eu não tenha lembranças a seguir-me, para que eu estejas livre e.

Agora ergo. Os olhos para o orbe de estrelas, a boca para o grito, o nariz para os altivos, ouvidos para os moucos, as mãos para quem me estende. E entende ou busca. Não fracassei, ainda que me apontes falhas. Não fraquejei, ainda que me digas batido. Se não ousei mais não foi por querer, foi por falta de. Se não amei mais não foi por falta de desejo, foi ausência de. Se não corro mais é porque não vês que meu caminhar já me leva longe, distante de. Um chamado me clama, e sei que ainda não é hora de porto seguro. Volto ao mar, com a glória de “Glória dos mares”; meu almirantado navio combalido de tantas lutas, de velas enfunadas e de cara ao vento...


Enfim, os arrebóis são lindos. Passei pelo melhor de instantâneos de vida, amei muito, naveguei por mares nunca dantes navegados, observei cores, contemplei o intangível e vislumbrei o incognoscível. Tenho que agradecer por estar vivo, ter visto tudo que vi, andado por todos os lugares onde andei, navegado por mares e céus onde nenhum ser humano navegou. Grato por ter vivido tudo que vivi e por ser exatamente como sou: nem alegre, nem triste; poeta. Nem fogo, nem água; etéreo. Nem tanto a terra, nem tanto ao ar; mar. Nem busca, nem achado; encontro... em algum lugar do futuro. Inexoravelmente onde o amor aguarda... onde todo o passado esteja atrás, enterrado nalguma curva do rio. Onde alguém esteja em pé; sem medo ou culpa; chamando:

-Amor...


(R. Moran)

*de velhos ensaios, idéias novas e as repetições do viver
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