segunda-feira, 25 de junho de 2012

Sutilezas

Sutilezas
(da série: Coisas a dizer...)







Alguns dizem que somos diferentes dos animais. Porque podemos fazer uma coisa que eles não podem fazer: matar a distância. Não queria que assim fosse... porque implica dizer que os animais são muito melhores que nós. E excludentes do reino animal; dito irracional; devemos ser portanto uma outra espécie de animal: a besta-fera. Que não só mata a distância, mas perversamente, mata de perto, mata de cima, mata de baixo, mata matado, mata morrido, mata queimado, de chão deitado, de caso pensado, mata de mentiras, de subterfúgios, de degredo, de abandono, mata de medo, de corrupção, de concussão, de bem e de mal, de maltrato emocional.
A morte e seu sentimento começa no nascimento, quando expulsos do concupiscente abrigo uterino. Ali choramos – de tal forma conscientes de nossa errática condição humana – sabedores que somos do caminho árduo à frente. Sentimos o peito demasiadamente oprimido e escuro. Falta luz no principiar da vida. O que não quer dizer que à adquirimos em seu decorrer. Deveríamos, mas não o fazemos em nossa maioria por sermos ridículos. Temos um corpo, mas as almas que nele residem não são duas, nem três, nem dez, mas incontáveis almas desesperadas em eterno conflito. O homem é um cacho de faces, de múltiplas facetas, de trama urdida em muitos fios. As antigas sabedorias sabem muito bem disso. Muito se estudou e muito se aprendeu sobre a ilusão da personalidade. Sombrio; ora divertido; multíplice no seu insistente jogo da humanidade, o homem caminha, insano. Estrada da dualidade e do caos. De encruzilhadas, escolhas e decisões. Indecisas em sua maior parte. Erradas por atitudes impensadas e gestos vazios, inúmeras e inúmeras vezes. Até que aprendamos a acertar, a não dar tantas voltas. Mas isto leva tempo.
A uns poucos foi dado, após milhares de anos e estudos, a descoberta da ilusão da condição humana, enquanto que milhares; a maioria da consciência mundana que transige nesta nave Terra; se dão a tanto trabalho para custodiar e fortalecer a mesma ilusão que deveríamos acabar de vez, quando não muito restringir gradualmente. Entendo que esta maioria busque ascender econômica e socialmente falando, em busca de uma vida melhor e de serem felizes. Mas por que então essa felicidade parece não chegar nunca? Quanto mais temos mais precisamos ter para alcançarmos um patamar que só fica cada dia mais longe. É o cachorro correndo atrás do próprio rabo. Deixamos há muito valores importantes para trás e que hoje são tratados como abstratos pela acachapante imposição da realidade prática estabelecida. E que se mostra falida, ainda que relutem em aceitar que algo está errado. Não entendem. Um dia me perguntaram: “Por que não entra no jogo? Há oportunidades e valores para serem conquistados?” Não entendem que têm valor para eles e não conseguem entender porque não têm valor para mim. Status, revolução, drogas, capitalismo, salão de beleza, carro esporte, montblanc, moet chandon, lugar na primeira fila e tudo o mais. Busco ser um ser humano; simples; e é só o que quero ser.
Por isso espero uma mudança. Não que queira uma mudança em massa, porque toda mudança em massa provoca loucura em massa. Há que se considerar, como dito por Nelson Rodrigues, que toda unanimidade é burra. Assim, mesmo à duras penas, prefiro uma mudança sutil e gradual. O que exaspera é a perspectiva de que isso parece estar ocorrendo no sentido contrário. Onde todos procuram respostas onde não existe nenhuma. Porque estão olhando para o lado errado. E existe lado certo? Não, eis o problema. Não existe lado nenhum, mas sim o centro, o interior abstrato de cada um onde se depositam todas as respostas. É uma jornada pessoal, e não é fácil empreendê-la. Mas as pessoas não sabem como viver e o que fazer, e acham que podem descobrir se forem com a maioria desesperada. As pessoas estão muito perdidas. E não quero isso para ninguém. Porque não fomos feitos para sermos bois em fila indo pro matadouro. Ciente que não o fariam espontaneamente, ainda que na sua limitada condição animal. Os bois assim agem porque são direcionados por um predador maior e não têm discernimento do fim que os aguarda ao término da fila. E então se dá o paradoxo.
Alguns podem dizer que somos iguais aos animais. Porque fazemos a mesma coisa que à eles só resta fazer incondicionalmente: caminhar para a morte. Cônscios ou não é mera conjectura individual, pode-se dizer. Queria acreditar que não, já que não temos predadores... o que implica aceitar que somos nossos próprios predadores. E não seremos? Senão vejamos: dominamos o fogo, criamos raízes, já fomos a lua, penetramos no núcleo do átomo; desenvolvemos obras de engenharia e cavamos fosso em busca de água; lançamos sondas espaciais e orbitamos planetas à distância; miniaturizamos o que já era mínimo e cada vez é menor; aceleramos o tempo; encurtamos o espaço; ampliamos nossos conhecimentos sobre a mente para descobrirmos que sabemos muito pouco; e se, quando pouco nos jogam num vazio; quando muito nos chamam de loucos. E damos mostras de que temos capacidades ainda maiores para cometermos atrocidades, vilipêndios e barbáries. É preciso um despertar para um novo estado de consciência, para uma nova realidade, menos fútil, menos aparente e mais sutil.
Eu acredito que o despertar possa acontecer a qualquer um, a qualquer hora, em qualquer lugar. Aprendi isso quando era pequeno. E aprendi também a lidar com coisas estranhas. Porque para mim o Mundo é um lugar mágico. E se pudermos acordar para o real, veremos coisas assombrosas e nenhuma maldade se justificará mais. Nenhuma disputa por poder ou posses fará sentido. As vezes sinto vontade de ir para a rua e gritar para que todos acordem. Mas o homem continua dormindo em seu sonho enevoado de sombras e destempero. Eu ainda não entendo. Na verdade, acho que nunca vou entender. Como seres humanos dito civilizados fazem o que fazem com o seu quintal, sua casa, sua cidade, seu país, seu mundo, seu semelhante? Talvez a civilização esteja ultrapassada. Talvez tenha perdido o compasso. Em nome da praticidade, renunciou ao abstrato, e com isso se afastou do cerne da questão espiritual. Que não pode ser tratada pela pífia e limitada racionalidade humana.
Gostaria de poder me comunicar melhor com meus semelhantes. Falar de coisas simples; da beleza na simplicidade; falar de momentos ímpares, de olhares pares; do riso fácil e da alegria que invade o cair da tarde. Me comunico apenas em um certo nível. Por minha própria incapacidade de me expressar. Mas é que nem tudo se conjectura em palavras tão facilmente quanto gostaríamos. E descobri que não dá para falar nada que não seja “a sério” com a grande maioria. Não entenderiam. Porque todos são muito sérios. Uns acham que vão para o inferno se agirem diferente. E não posso fazer nada para que entendam que não necessita ser desta forma. Não há comunicação nestes níveis.
Temos que adentrar no campo das sutilezas. Na forma e na essência. Temos que querer perceber, temos que ter um olhar além. Temos que duvidar, questionar, perguntar; sem medo de opinar e sermos expostos; de revelar-nos, desobscurecermos, clarearmos a fonte, romper paredes, sairmos do labirinto, da boca da caverna que nos tolhe, e nos prende, sufoca e nos mata. Aos poucos, morrendo assim. Mas chega de falar de morte. Falemos da vida. Porque é disso que estamos falando o tempo todo. Não existe essa dualidade. Por isso somos ridículos. Não percebemos que tudo que morre é para nascer de novo, e de novo e de novo. Tanto quanto for preciso até não ser preciso mais. Há uma evolução em todo o processo, ainda que se mostre lento como o rio que corre para o mar. Por baixo, bem por baixo, percebe-se a correnteza que inexorável vai ganhando força. Somos fadados ao sucesso, somos seres luminosos. Que alguém nos escute, por favor...

Podem dizer que no fundo quero o mesmo que todos. Não seria verdade. Não preciso de tanto poder ou de tanto dinheiro. Posso ficar aqui neste meu caminho, desde que seguindo em frente. Não preciso ser presidente do país ou membro da diretoria. Não preciso subir dessa forma, fazer essa escalada invertida para longe de mim. Está tudo aqui agora, comigo. Ou quase tudo... o que falta, então?
Quero ser Eu em plenitude e encontrar um lugar onde possa manter o equilíbrio e a clareza dentro de mim mesmo. Não como Hamlet: “Ser ou não ser.” Apenas Ser. Onde exista alguém que não entenda porque sou assim, mas queira que eu seja mesmo assim. Onde este alguém não seja apenas uma metade, mas o complemento do Todo em uma unidade. Para que possamos ter o riso fácil de quem não tem mais pressa de chegar. Na sutileza do olhar, do encontro, da magia, das respostas interiores emanadas do calor das bocas silentes, do cair da tarde, do mistério da noite... A noite eterna, que a mim invade agora. Sou notívago, já disse?
(R. Moran)
* todos os direitos reservados ©


sexta-feira, 8 de junho de 2012

Considerações sobre o viver

Considerações sobre o viver

“Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar....”




Terra. Ainda estou em terra. Toda hora acho que vou acordar de volta ao mar. Com o balanço das ondas e o cheiro peculiar de maresia a me inundar. Mas acordo e não há nada. Já estou aqui há alguns dias, esperando por meu navio. Se recuperando nos estaleiros de Aveiro após a grande batalha da última tempestade. E eu amolecendo. Cada minuto que fico em terra, fico mais fraco. Toda vez que olho ao redor, a sensação de aprisionamento aumenta. Que corredores me cercam? Que paredes me apertam nesta falsa hospedagem terrena? Penso que estou com a síndrome do marinheiro. Meu cérebro em conflito com meu corpo. Mas isto não é novidade. Ou não deveria ser.

Um sábio uma vez disse que repartir o pão com o inimigo é um gesto genuíno de um homem civilizado. E já que aqui estou, hoje quero que todos sejamos civilizados e que possamos repartir o pão. Que este tempo seja proveitoso de alguma forma. E seja porque cheguei até aqui; ou por assim ter me tornado por força de grandes esforços em entender a humanidade; proponho uma “negociação”. Negociação é uma discussão ou conferência entre inimigos sobre os termos da trégua. Não que os homens sejam meus inimigos; eu próprio um ser humano. Mas façamos um armistício só por hoje, baixemos a guarda, recolhamos as armas e apenas sentemos ao redor desta mesa e falemos sobre as coisas que realmente importam. Não sobre dinheiro, carreira ou a roupa cara sob os holofotes da vitrine. Falemos sobre a alma, sobre nossas dores e como resolver nossos conflitos, por exemplo.

Existe um conflito dentro de cada coração humano, entre o racional e o irracional, entre o bem e o mal. E nem sempre o bem triunfa num primeiro momento. As vezes, o lado escuro supera o que se convencionou chamar de “os melhores anjos de nossa natureza”. O lado escuro da Lua, do homem primitivo que habita em todos nós. Os homens rejeitam seus profetas e os executam, mas amam seus mártires e aqueles que executaram. Então qual é a diferença entre um profeta e um mártir? Nenhuma, já que todos acabam mortos. O mundo carrega tanta beleza quanto terror em suas entranhas, e o mais terrível é o homem. É o único entre as espécies que mata seu semelhante; que faz dele seu inimigo. Conhecemos o inimigo e não aprendemos nada sobre ele. Porque não conhecemos nem a nós mesmos. Precisamos entender que nós não caminhamos no escuro. Nós somos o escuro. Há coisas que os homens podem fazer que são decepcionantes para o espírito. Eu procuro aprender algumas coisas sobre mim e os homens. Sei que existem coisas que até podemos conciliar com Deus, mas conosco mesmo jamais. E a pior coisa que o ser humano pode experimentar não é ter seu corpo acabado, mas sua alma despedaçada.

Por isso devemos ter cuidado com as nossas ações. Mesmo as mais triviais. Devemos cuidar com quem embarca em nossos navios. Mesmo os mais aparentemente inofensivos. Que o ser humano é dotado de uma capacidade sórdida de causar danos. De maltratar sem outro motivo que não seja machucar. Mesmo quando dizem querer o bem. Principalmente quando dizem não querer magoar. Estes são os que mais mágoas provocam. Minha última tempestade é prova disso.

Não sei se, ou como está me vendo. Tristeza? Pena? Desprezo? Amor? Talvez indiferença. Acho que já sabe que não sou muito crente nos homens. Optei há muito por depositar minha fé em outro lugar. Nas coisas simples, no navegar pelo desconhecido, no por do sol além, no movimento da natureza, na natureza do amor. Por que os homens amam a dor? Por que se apegam ao sofrimento? E que desejos os motivam, os fazem viver? Eu gostaria de dizer que seria pelo desejo de ver o bem triunfando sobre o mal. Mas na verdade, entre uma grande massa de decrépitos, isso não parece se aplicar. Não sabem o que querem, para onde vão, suas pernas não sabem se estão a cavalo ou a pé, se estão caminhando vendo à frente ou ficando cegos. De qualquer forma, estão batendo as mãos e os pés, gritando e lastimando, seguindo e cometendo os mesmos erros de sempre e sem se perguntarem por um momento sequer o porquê. E quanto a nós? E quanto aos que acreditam em sonhos e poesias? Nos chamam de loucos, enquanto que eles, os certos, continuam a fazer bombas.


Existe uma lenda da tribo Hmong sobre uma águia gigante que se propõe a levar dois guerreiros até uma lua feita de ouro. No caminho os homens começam a se desentender e se tornam gananciosos. Finalmente lutam e um mata o outro, e então a águia come o sobrevivente em desgosto. Todas as fábulas Hmong são sobre a futilidade do ser humano.

Somos homens ocos, somos homens estofados, a cabeça cheia de palha. Eis nossa estirpe!Nossas vozes secas, quando sussurramos juntos, silenciosas e insignificantes como o rumor do vento nas folhas. Nossos pensamentos em formatos disformes, nossas sombras sem cor. Força paralisada, que gesticula sem se mexer na inutilidade do vazio.

Por isso vivemos em um círculo vicioso. Nossos pensamentos alimentam nossos medos. Nossos medos alimentam nosso instinto de sobrevivência. O instinto por sua vez alimenta nossa belicosidade pela luta em viver. A luta nos torna mais duros e nos faz ver em cada ser humano que se aproxima um inimigo. A visão deturpada alimenta nossos pensamentos, que tornam a alimentar nossos medos. Que nos vendam. Que nos impedem de enxergar o real. O que realmente importa.

Para romper este círculo vicioso seria preciso que nos despíssemos das vendas. Seria preciso querer ir além da boca da caverna. No mito da caverna de Platão, as pessoas que viviam na caverna apenas conheciam o que havia dentro daquelas paredes de rocha. Além da boca da caverna era o fim do mundo. Até que um dia um deles escapou de lá. Ele saiu e viu o mundo real; o sol, as cores, a vida abundante; voltou e contou aos outros. Então ele foi surrado, porque não acreditaram. “Não pode ser” - disseram. E por medo se recusaram a ir lá fora para verem o que havia. Sei que muitos; a maioria; não está pronta para ver o que há lá “fora”. Mas é preciso começarmos ao menos questionar. É preciso querer ver.

O desafio que agora enfrentamos é reconhecer que as respostas para as questões prioritárias à nossa vida podem estar na nossa frente. E não as vemos pela cegueira temporal que parece acometer grande parte dos homens. 


É pouco provável achar palavras certas para descrever o que é importante, para aqueles que não sabem o que é o amor. O amor verdadeiro. O amor tem várias faces e devemos conhecê-las todas, principalmente a que envolve a história entre o homem e a mulher. Mas temos medo de vivê-lo em plenitude. Acreditamos que o amor é finito, e portanto tende a morrer.

Não devemos temer o amor como se ele fosse um inimigo. Como se dele resultassem coisas ruins e desagradáveis. Isto é fruto único e exclusivo dos homens e da sua visão deturpada da vida. Como se o amor fosse uma guerra a ser travada. Como se houvessem vencedores neste embate insano. Falsa é a ostentação do vitorioso. Vazio nosso orgulho de vida. Para os que partiram de nossas vidas não há inferno ou céu, apenas um vazio. Que não pode ser preenchido até que cada um aprenda realmente o que é amar.

Muitas vezes o poder do amor pode ser maquiado com a retórica. Como um manequim em vitrine de loja posicionado sob as falsas luzes brilhantes da racionalidade mundana. Como se o amor fosse algo que pudesse ser vendido em uma boutique de luxo, ao invés de simplesmente ofertado e partilhado gratuitamente.

Na nossa vida somos capazes de nos maravilhar com inúmeras coisas que vemos. Ou pensamos ver. Enquanto alguns; como os cientistas; buscaram ver coisas cada vez menores, outros; como os astrônomos; buscaram ver o que havia cada vez mais longe, céu noturno adentro, indo e voltando no espaço e no tempo. Mas talvez o maior mistério não seja o pequeno ou o grande. Somos nós, em nosso interior. E ao olharmos para dentro de nós, seríamos capazes ao menos de nos reconhecer-nos? E se pudéssemos, realmente nos conheceríamos? O que diríamos a nós mesmos? O que aprenderíamos de nós? O que realmente gostaríamos de ver se pudéssemos parar diante de nós mesmos e nos olhar? Seríamos capazes de nos amar? Porque só podemos dar amor se o temos suficiente dentro de nós, e se nos amamos com tudo o que temos de bom e de ruim. Se amamos a nossa vida, o nosso viver, a despeito de como ele seja.

Mas as coisas melhorarão. O sol nascerá em um novo dia sobre o oceano. Sei que para muitos pode não parecer, mas esse amanhecer chegará. Há esperança. Talvez fale como um profeta. Que espera não ser surrado ou executado por aqueles que não acreditam. E aí penso que todo o sofrimento apercebido possa ter valido a pena. Porque não consigo pensar em um profeta; que valha algo; que não tenha sofrido. E também não consigo pensar em um que não tenha tido amor. Um imenso amor próprio, pela vida e pelo seu semelhante.

Eu tenho sonhos. Ontem eu tive um sonho. No sonho eu chegava até você e nenhuma palavra foi dita entre nós. Vinha de longo navegar, uma vida de labuta e sangue. Quando trevas e atribulações eram uma constante. E tudo; até aquele ponto; serviu para nos levar ao encontro e sabíamos haver pouco risco envolvido. Havia a sensação de um porto sempre seguro e perene. Então você disse: “Pode entrar, lhe darei abrigo das tempestades.” E ali sabia haver encontrado algo realmente importante.


Ah! São coisas da vida, daquilo que conta, daquilo que fica.


(Por hora me contento apenas em estar de volta ao mar...)


(R. Moran)
* todos os direitos reservados ©

sábado, 2 de junho de 2012

Antes de partir

Antes de partir...(e a vida se repete)



Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte,

mal algum eu temeria, porque tu estás comigo...



Agora lembro. Dos risos fáceis e puros. Do mostrar a mancha roxa esculpida no corpo e eu rindo também porque te queria rindo; feliz. Apesar da rudeza do maxilar e dos entrejeitos de boca, gostava de ver que por vezes era criança e principalmente por que agora me lembro de levantar a cabeça do travesseiro para observar nossos movimentos sincronizados no olhar. Gostava do dizer nestas horas mesmo quando não dizíamos nada, apenas nos assustávamos no mirar. De saber ou pensar em saber do quanto era grato o querer. E quando dizíamos não eram letras que saltavam da boca, mas sentidos sentimentos que se traduziam em algo que era amor, ainda que fizéssemos força para negar. De tocar teus cabelos lustrosos que me faziam pensar numa noite eterna emaranhada de brilhos de Lua, misturando-os até que se embaraçassem entrededos em novelos de sonhos. Depois os passos que foram dados sem que eu pedisse; sem entreatos vazios mas intensos; para que eu acreditasse que era possível ser; das luzes que víamos e ríamos sem que as mãos pudessem segurar o que sequer se toca; só se sente e vive.

Agora digo. Das palavras doces e das amargas. É preciso que eu tente de todas as maneiras dizer; é o que eu estou fazendo; minha última tentativa. Estou tentando dizer sem conseguir, por favor, me ajuda, senão daqui a pouco não será possível, senão vai ser muito tarde. E é por isso que estou rouco agora. Não, não é do som da garganta que fala que falo. É de uma outra voz, da que vem de dentro, entende? Por favor, não ria ou se entedie julgando pensando que me faço de vítima. Não é preciso; deixa eu te dizer antes que eu parta ou morra, ou ambos, que partir e morrer é apenas uma questão de vista. Ou é longitude ou profundidade.

No princípio era leve, havia leveza e era o que querias então me bastava também. Por que então quis que se tornasse complexo dizendo a mim que era pra sempre? Por que fazia juras que depois negavas como quem nega a própria imagem reflexa? Por que uma hora era poesia e na outra covardia? Não consigo compreender como penetrei na teia sem ter consciência, sem policiamento; eu que confiava tanto em mim e que me dizia que tudo estava sobre controle. Para isso basta saber que cresceu dentro de mim de um jeito totalmente insuspeitado, como lunação que transita de nova para crescente. Era só uma pequena luz de luar, mas que em algum momento expandiu em alguma luminescência enorme; de Lua cheia, de estrela Ursa, maior ou menor tanto faz; e me obrigou a abrir as janelas da alma, depois as portas; todas as portas; para então derrubar as paredes internas do que sou e meu telhado de sonhar para deixar que tua luz se expandisse mais do que além. Era preciso para que crescesse livremente, eu não podia tolhê-la, compreendi a tempo que você precisava de muito espaço livre e assim fiz, não pense que me arrependo, apenas que para isso tive que me desfazer de toda segurança que eram as janelas, paredes e telhado de minha casa– meu templo que me dava guarida.

Sei então de acordar uma noite, só e nu, abrir os olhos para um teto de espaços vazios e tocar um lugar vazio na cama. E por não encontrar nada, procurei um cigarro, depois uma chama e depois fumei odiando cada trago, querendo que cada um me devorasse e me queimasse. Pois que fogo se trata com fogo. Depois me olhar no peito e me dar conta de um simples cabo assomando, sem floreios ou marcas que o valham. E sentir uma fria lâmina congelando por dentro o que antes abrasava em erupção solar. Agora sei e assusta-me a certeza súbita de que nada poderia fazer para evitar os acontecimentos, senão aceitá-los como se aceitam tantas coisas na vida. A morte inclusive.

Agora sangro. Não que seja visível como a luz espraiada que se desprende do abajur enquanto desenho estas linhas. É interno, é silencioso o sangrar... e intensamente doloroso. Verte cálido dentro do peito; me fazendo sentir fome e sede; me entontece; inunda órgãos e espaços interiores, ocupa todas as brechas e frestas entreossos. O cabo retirado do peito mas a lâmina ainda dentro; incólume e oculta de todos; maltratando e matando aos poucos. No espanto da noite estou só e não tenho para quem gritar minha dor. Ninguém para dizer de meu ferimento, minhas mazelas; ninguém para compartilhar minha fome de uma alma, minha sede de saliva, meus desencontros; ninguém para suprir a falta de amparo ou um quilate de amor. Nem ao menos uma parede para me sustentar.

Agora choro. Por isso agora choro. Não que as lágrimas escorram pelas faces sulcadas. São secas e quentes e não lavam ou refrescam a alma como dizem os poetas. São lágrimas de fogo que brotam dos olhos como estrelas cadentes e que queimam no cair tardio dessa madrugada. E ao olhar de dentro da alma pela janela dos olhos me vejo parado no meio do quarto olhando para fora de mim. Olhando para fora e repetindo: onde foi que me perderam e abandonaram? Por que o bicho-papão não saí de cima do telhado e desce para me engolir? Talvez no seu mastigar haja lenitivo para a dor pois; ainda que doa; doí menos do que sangrarmorrerassimaospoucos. Pelo menos deve ser rápido, penso enquanto com a mão toco o peito e sinto o farfalhar de uma sombra deitada rindo dizendo que não existe bicho-papão; não para mim. Nem telhado tenho mais. Que é bom que eu sangre para que se vingue todos que maltrataram, todos que jogaram pedras. Terei eu jogado pedra na cruz? Mas em qual cruz? Em quantas cruzes? Ainda assim, havia a opção de não ser por estas mãos que sangrasse. Não precisava ser. Todas as mãos seriam bem-vindas; pálidas, tortas; direitas ou esquerdas; negras, brancas, morenas; de pianista ou de equilátero ferrífero; mãos de jade ou de jasmim; de ébano ou Danúbio azul; de sombras; de cores; do lado brilhante do dia ou do lado escuro da Lua. Mas não de mãos que tomaram meu Eu, de mãos onde depositei pleno de esperanças minh'alma machucada para que fosse observada, não curada. Que curar se curaria sozinha, bastando a paciência de se esperar. Mas que a vida pode não ter pressa, mas que a morte sim. Quando se quer a morte daquilo que afronta os que não acreditam que – a despeito de – é possível. Onde só se vê problemas, querências de dizer não, negação da vida e do próprio amor. E que não ouses levantar a voz, não queiras dizer o que sentes, pois que somos fracos e farsantes vítimas aos olhos de. Uns pobres coitados, dignos de pena.

Por isso, antes que eu morra, parto. E lembro, digo, sangro e choro... antes que eu parta. Para que eu não sobrecarregue mais meus porões, para que eu não tenha lembranças a seguir-me, para que eu estejas livre e.

Agora ergo. Os olhos para o orbe de estrelas, a boca para o grito, o nariz para os altivos, ouvidos para os moucos, as mãos para quem me estende. E entende ou busca. Não fracassei, ainda que me apontes falhas. Não fraquejei, ainda que me digas batido. Se não ousei mais não foi por querer, foi por falta de. Se não amei mais não foi por falta de desejo, foi ausência de. Se não corro mais é porque não vês que meu caminhar já me leva longe, distante de. Um chamado me clama, e sei que ainda não é hora de porto seguro. Volto ao mar, com a glória de “Glória dos mares”; meu almirantado navio combalido de tantas lutas, de velas enfunadas e de cara ao vento...


Enfim, os arrebóis são lindos. Passei pelo melhor de instantâneos de vida, amei muito, naveguei por mares nunca dantes navegados, observei cores, contemplei o intangível e vislumbrei o incognoscível. Tenho que agradecer por estar vivo, ter visto tudo que vi, andado por todos os lugares onde andei, navegado por mares e céus onde nenhum ser humano navegou. Grato por ter vivido tudo que vivi e por ser exatamente como sou: nem alegre, nem triste; poeta. Nem fogo, nem água; etéreo. Nem tanto a terra, nem tanto ao ar; mar. Nem busca, nem achado; encontro... em algum lugar do futuro. Inexoravelmente onde o amor aguarda... onde todo o passado esteja atrás, enterrado nalguma curva do rio. Onde alguém esteja em pé; sem medo ou culpa; chamando:

-Amor...


(R. Moran)

*de velhos ensaios, idéias novas e as repetições do viver
* todos os direitos reservados ©