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sexta-feira, 17 de maio de 2013

Não haverá despedida


Não haverá despedida


"Somos como forjas em que se funde o ferro para ligá-lo em aço.
Não sem a bigorna e o martelo. E o que é o martelo?
O que é o ferro para ser malhado?
Em que fornalha estão nossos mentes e almas? Que é a bigorna?
Que mão terrível ousará manipular nossos terrores mortais?
As nossas mãos..."

Inspiração e manipulação em William Blake “The Tiger”





Como deixar de ver? Há tanta dor. Todas as pessoas, todas as vidas deles. O tempo todo. Há tanto fingimento, tanta futilidade na forma como vêm a si mesmos e o mundo. Como aguentam? Nascem, estudam, trabalham, casam, têm filhos; ou não; constroem palácios ou casebres, bebem, fornicam, assistem futebol pela TV, se drogam, saem para jantar, viajam pelos pequenos espaços do mundo, escalam montanhas, vão a Lua, tornam a beber, vão a uma peça, conversam animadamente com amigos ao redor de uma lareira e um bom vinho e falam como a vida é boa. Depois morrem sem ao menos nunca, ou quase nunca, se perguntarem: Por que?
Há tanta dor. E não sei como fazer para não notar. Para não ver as marcas do sofrimento estampadas atrás dos olhos, por trás do para-brisa do carro importado ou detrás da taça de cristal ou do copo americano. Vinho ou aguardente, tanto faz, todos irão vomitar algum dia. Alguém pode perguntar: O que tanto te machuca? E respondo que não sou eu apenas. São eles. Todo mundo. Todo o mundo aparente do qual já me cansei e que não vejo graça nenhuma. É como estar indefinidamente em um parque de diversões, e depois de descer milhões de vezes na mesma montanha-russa, depois de girar na roda gigante mais voltas do que trilhões de vezes a órbita do Sol, depois de se cansar de comer tanto algodão doce que seu gosto se torna amarga ao insuportável, o parque deixe de ser divertido para virar uma tortura medieval, um castelo do terror do qual quero sair. A vida é mesmo um grande quebra-cabeças, e as peças estão todas espalhadas diante de mim sem que eu consiga encontrar sentido algum.
Eu sou louco. Mas apenas louco. Não sei porque então pareço sempre machucar as pessoas que amo, sempre fazer coisas que fazem com que me apontem o dedo e digam que andei errado, sempre falar coisas das quais depois todos usam contra mim no tribunal de contas dos homens. Não sei mais o que fazer. Para tirar o gosto amargo da boca, do peito. Para estancar as lágrimas ácidas que caem dos olhos, e queimam, e sangram, e cortam a carne e ninguém vê ou parece se importar. Porque mesmo quando dizem que sempre se importam, sempre é quase nunca, eu aprendi.
Já me deixei contagiar com a essa sujidade, com toda falsidade da condição humana. Não vou mais entrar em detalhes sobre isso, mas vou dizer que houve dias bem ruins. E alguns lindos e poucos inesperados dias. Mas foram apenas migalhas, pequenas porções de ilusão. Como tudo que está ao nosso redor agora, como tudo que vêm tão sólido e que no entanto é capaz de se desmanchar no ar com incrível facilidade diante de meus olhos. Me disseram uma vez que não escolhemos de onde viemos, mas digo que podemos escolher para onde ir. Sei que isso é pouco, mas é o suficiente para começar a juntar as peças deste quebra-cabeças que é viver.
Não sei se terei tempo para escrever mais, porque estarei muito ocupado tentando achar uma “saída”. Então, se este for meu último texto por agora, saiba que estive numa situação muito ruim por diversas vezes, e você de alguma forma me ajudou. Mesmo não sabendo do que eu estava falando na maioria das vezes, ainda que achasse que entendias. Ou conhecesse alguém que já passou por isso. Você, de alguma forma, fez com que eu não me sentisse tão sozinho. Porque sei que existem pessoas que dizem que estas coisas não acontecem. Que há pessoas que se esquecem do que é ser criança quando se tornam adultos. Do quanto pode ser pavoroso ser uma criança num mundo diferente e inóspito, onde o perigo ronda a todo momento e a morte é uma certeza. Sei que tudo isso não passará de histórias alguma hora, e que essas imagens se tornarão apenas fotografias antigas esquecidas em um baú. Melhor assim para todos. Quando seremos apenas uma lenda. As lendas que nascem da necessidade de se decifrar o indecifrável. As memórias que devem se contentar de seu delírio, de sua falta de rumo. A loucura que nos protege, como a febre. Acepção de um conceito de vida que nos conduz inevitavelmente a nós mesmos, aos nossos meandros interiores, sendo a loucura a forma que encontramos para lidar com o incompreensível. Mas neste momento, estas imagens não são histórias. Isto está acontecendo. Eu estou aqui olhando para elas. E apesar de tudo elas são lindas. Há uma beleza mórbida e triste permeando tudo, mas ainda assim – belas. Eu consigo enxergar. Este momento que você sabe que nem tudo é uma história triste. Eu estou vivo ainda. Eu me levanto e vou até a janela e vejo as luzes dos prédios, há uma rua lá embaixo, uma lua crescente acima e tudo que sempre me fez perguntar: Por que? Então vejo uma imagem: uma música toca ao fundo, contemplo a noite e o espaço, e sei que estou nesta nave chamada Terra se deslocando no espaço a mais de dois milhões de quilômetros por hora. E neste passeio, estou com a pessoa que mais amo neste mundo. E neste momento, eu juro... nós somos infinitos!

Por hora eu vou. Sem pressa de partir, nem tempo de chegar. Mas sei que sigo, e tudo que me espera é o inesperado. Porque para mim, só resta percorrer os caminhos que tenham coração. Por isso, não haverá despedida. Apenas um eterno reencontro...

(R. Moran)
16/05/2013
23:24 hs




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segunda-feira, 25 de março de 2013

Reflexões do Tempo II

Reflexões do Tempo II
 
         A vida é cíclica, é fato! Imersos na poderosa Roda de Sansara, vamos conjecturando os fatos que se repetem, até que entendamos sua necessidade de desprendimento das formas-pensamento que nos agrilhoam ao passado. E por ser cíclica, por ser poderosa, por sermos ainda o aro desta roda a girar interminavelmente, nos deparamos vez por outra com os fantasmas do passado. E percebemos que, ainda que semelhantes, são diferentes na forma como absorvemos sua dor... cada vez mais tênue, cada vez menos infectante, menores as cicatrizes. E então a mágica acontece... um dia acordamos e não nos lembramos mais porque pensávamos que aquela dor era tão importante. E se ela insiste em nos afrontar, se ela insiste em se repetir a despeito dos personagens diferentes, percebemos que nossa capacidade de contraponto é maior na medida em que incorporamos o martelo e a bigorna na forja a nos moldar em algo melhor. O aço para brilhar necessita de muito fogo a arder, muito repicar de martelo na mesa de ferro que é nosso existir. Março era um desses fantasmas a nos torturar. Mais uma vez março voltou. Mais uma vez a dor se repetiu no mesmo palco. Mas desta vez algo mudou. Talvez seja o calejamento a tornar a casca dura. Talvez seja uma forma-anjo que se prenuncia.Talvez seja uma amiga, pessoa ou palavra, que nos encontra numa esquina e nos ensina que viver vale a pena, que o amar vale a pena. Penso que, de verdade, seja o conjunto de tudo isto e de muito mais que não adivinho. Por isso março não assusta mais, não assombra mais, não atormenta mais...
 
 
 


Inquieta despedida




Atravesso as tábuas em ruínas

do que foi meu porto um dia

Deixo atrás doloridos abismos

e um viver que só a ti destinas
 

- por mais, não sofrerei!


Me afasto da dor que era constante

de braços dados ao silêncio e ao tempo

na fria cova de março permanece

o meu querer ora morto, ora distante


- por mais, não chorarei!



Vais cada dia mais longe de mim

e por mares noturnos em que navego

do que eras clara e tonta alegria

restou a sombra de um sonho ruim


- por mais, não sonharei!


Nesta inquieta e calada despedida

sigo partindo sem marcas de volta

e pelo silencioso perigo deste mar

vou por rota incerta, desconhecida


- por mais, não desesperarei!


O tempo navegado não se pode calcular

por espumas da vida e furiosas tormentas

à procura de braços e desejo de calmarias

sigo incontinente tentando encontrar

um novo porto, um novo lugar


- por mais que não, chegarei!



Março/2012
(R. Moran)
Da série: Coisas a dizer... para quem foi e quem vem depois


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sexta-feira, 8 de março de 2013

Reflexões do Tempo I

Reflexões do tempo I


Existem tantas coisas escritas na alma que não cabem em mim... e por vezes transbordam em letras vermelhas no branco do papel. São vertidas no silêncio da noite, na solidão da calma e no escondido das horas.  Nascem sem pedir licença, abruptas, e chocam por vezes pela crueza com que se mostram. Assustado pelo reflexo interior de mim mesmo, cubro o espelho e me resguardo. Aos poucos porém, um crescente incômodo se faz presente. Do incômodo passa-se a dor, até que não é possível mais ignorar aquilo que grita e necessita sair dos muros. Aos murros brota das fendas do pano esgarçado pelo tempo, e convertido em símbolos renasce para com suave alívio transmutar o que era aflição. Assim posto, posto nesta série de reminiscências de um passado que insiste entre fazer e diluir,o cunho das marcas e cicatrizes que vão n'alma de um louco e apaixonado pela vida poeta...
 
 
 

 
Nada e Tudo



 


Já lhe foi dada a esperança, mas a mim, sim!

– muita fúria, calúnia, insensata descrença.

No vento frio da lembrança que sopra e não retorna

desfaz-se como pétalas mortas de existência

teu rosto que se descolore e pálido perde a forma!



Já lhe foi dada a crença, mas a mim, basta!

– Do gosto amargo dos venenos humanos

à mais pura taça a verter a dor que entornas.

Por detrás de acusações tortas, fechas a porta

para a paixão que se vai... e triste não volta!



Perdidas as horas pelas casas do relógio,

se longe vais, oh madrugada, porque tardas o dia?

Os açoites que acompanham teus passos que partem

não escondem as sombras que lhe fazem companhia

e cobrindo a luz de teus olhos, teu brilho esmaecem.



Tudo leva o roldão do tempo, tristes lábios que calam

sussurros em campos longos e vagos que desaparecem

Longe, longe, ocultas em desvão solitário da alma

antigas lágrimas guardadas escorrem e depois passam

como flores que o inverno apaga e depois esquece.



E em nova noite que nasce e nada é insensato

do brilho da Lua ao crer em sonhos que crescem

meus sentidos de calma urgência vão a me dizer: 

 
- que Nada é o que ficou para trás,
 
- que Tudo é o que a frente me compesce.
 
Maio/2012
(R. Moran)

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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Algumas coisas a dizer...


Algumas coisas a dizer(antes que o tempo acabe)



Todos nós estamos à beira do precipício. Todo o tempo, toda hora. Um penhasco que todos iremos saltar um dia. Onde haverá um momento de escolha. Mas nossa escolha não é sobre isso. A escolha é se queremos ir a força e gritando ou se queremos abrir nossos olhos e corações para contemplarmos o que acontece enquanto caímos. As pessoas gostam de analisar as coisas que lhes causam medo. Para olhar para elas e dar nomes. Os religiosos procuram a Deus, os cientistas as evidências e os fracos que não sabem lidar com seus espectros, a bebida, o isolamento químico ou outro refúgio qualquer para a dor. Todos de alguma forma buscando resolver o mistério da vida, para se livrarem do medo. Ou para suas almas ficarem suficientemente entorpecidas e ausentes onde nada mais os alcance, assim pensam.

Quando se faz alguma coisa que não se pode voltar atrás, algo que você não compreende, você procura se segurar naquilo que compreende. E quando isso não basta mais, pode-se simplesmente desistir e esperar a morte ou superar-se na busca de um sentido além de todas as coisas que você compreende. Porque se você acreditasse que tudo que você teve que fazer foram coisas certas, teria que encontrar uma razão. Mas o que acontece quando você acha as razões e elas não são as suas razões? Como você encontra algum conforto e sentido nisto? Quando se é apenas uma marionete nas razões e sentidos das sombras...

Muitas pessoas perdem as esperanças de que qualquer coisa possa mudar em suas vidas depois de um tempo. Apenas levam suas vidas, dia após dia, e se algo acontece que as torne diferentes, elas provavelmente nem conseguem notar, exceto por um sentimento incomum ou muitas vezes desagradável. Por que são avessas as mudanças... mesmo se for para melhor. É incrível como o ser humano se apega a tudo, incluindo as coisas ruins. Principalmente as ruins, pequenas ou grandes.

O mundo é feito de grandes coisas e de pequenas coisas. A parte mais insensata e quando damos o nome de “grande” e “pequena”. Porque quando algo nos acontece, quando perdemos alguma coisa ou alguém com quem nos importamos, isto é tudo para nós. Não interessa se o mundo está acabando. Nada mais é tão importante quanto nossa perda. Porque ela nos mostra o quão mais e mais solitários ficamos a cada dia.

Quando eramos apenas crianças, tudo que queríamos era que as estórias e os contos de fada fossem verdadeiros. Sabíamos que isto não iria acontecer, mas bem no fundo torcíamos para que de alguma sorte estivéssemos enganados. De alguma forma sabendo que a magia estava ali, em algum lugar, escondida. Trata-se de esperança. O natal, por exemplo, se trata de esperança. Quando a criança que havia em todos nós contemplava a árvore de natal, esperávamos ansiosos por novos brinquedos. As pessoas envelhecem, os brinquedos são maiores, mas no fundo a esperança persiste. Pena que ela não seja a mesma. Porque alguns até esperam a paz na terra, alguns poucos podem desejar o amor; um amor sincero; ou talvez um amanhã melhor, qualquer que seja sua ideia disso. Mas a maioria das pessoas só querem mesmo algo mais luminoso, brilhante, caro e novo. Na tentativa de suprimir o imenso vazio que se expande nos confinados muros interiores. Na falta da crença naquilo que realmente importa.

As pessoas acreditam no que elas querem acreditar. Encontram o significado do que podem e se apegam a isso. No fim, não importa muito se é verdade ou um torpe engano. O que importa é apenas no que acreditam. A vida pode ser como um passeio de montanha russa. Existem altos e baixos. Tem grandes sustos, manobras rápidas, lentas, frio na barriga, emoções e um lugar onde tudo acaba. A diferença é que na montanha russa você sempre volta ao ponto em que começou, e na vida você está em um ponto totalmente diferente daquele que embarcou.

Todas as pessoas buscam de algum modo acreditar que têm o controle sobre suas vidas E na maior parte do tempo, realmente acreditam estar no comando. Mas é quando algo acontece que se lembram que o mundo obedece suas próprias regras e não a dos homens, e que estamos aqui apenas de passagem. Somos todos mortais. Poucos de nós realmente conseguem entender o que se passou; a maioria sente apenas que não houve tempo suficiente. Tempo para conhecer ao outro, tempo para amar, tempo para sonhar e tempo para viver.

O que nos faz humanos? Poder pensar? Sentir, viver, rir e chorar... Como podemos experimentar a alegria ou a dor? Raiva... Nós podemos machucar e nós podemos fazer rir e nós temos um passado e um presente. E, de algum modo... um futuro. E talvez, uma das coisas que nos faça humanos, é o fato de sabermos o suficiente para pensar que não nascemos para estar sozinhos. Que possa existir alguém que nos compreenda na forma e na essência que somos. Mas infelizmente, muitas vezes estamos cegos e incapazes de perceber a sorte que se nos apresenta. Estamos limitados pelos muros de nossa prisão interior, agrilhoados ao sofrimento, sem conseguirmos olhar para fora.

As pessoas estão sós neste mundo por diversas razões diferentes. Muitas têm algo em sua disposição; outras talvez só tenham nascido muito mesquinhas... outras por terem nascido muto carinhosas. Porque manifestar carinho nestes tempos pode ser visto como inadequação. Outras ainda são levadas a esta condição por algumas circunstâncias. Como uma calamidade ou por um coração partido. Ou qualquer outra coisa desventura que tenha acontecido em suas vidas cujo resultado não esperavam. E ao invés de se desvencilharem disto, se agarram a estes momentos e a eles se entregam em um eterno sofrer. E se fecham para tudo... para novos momentos, novas oportunidades. As pessoas estão sós neste mundo por muitas razões diferentes. A única coisa que sei, é que, não importa o que qualquer uma delas possa dizer... ninguém quer estar sozinho.

Muitas pessoas não apreciam ou não sabem apreciar o carinho ou a generosidade existente no outro. Também são incapazes de ver a tristeza em alguém. Por estarem elas mesmas tão tristes, tão tristes, mas tão profundamente tristes, que a única coisa que conseguem é sorrir e dizer à todo mundo que estão bem e são felizes. Sem enxergarem a si próprias, o que dirá enxergar ao outro...

Existem algumas coisas que não compartilhamos com qualquer pessoa. Todos temos nossos medos e segredos. E tristezas... Eu não me importaria se alguém visse em mim a tristeza. Talvez fosse o princípio para que também pudessem enxergar uma certa beleza, um gesto de mãos ou uma disposição carinhosa. Uma vez aconteceu comigo. Mas não com o resultado que esperava. Porque nada é tão simples. Em tempos comuns, os homens comuns levam vidas simples em meio à coisas comuns. Mas estes não são tempos comuns. É tempo de dor, de morrer e talvez de renascer se tivermos suficiente poder pessoal.

Tudo que precisamos saber está aqui, agora. O sucesso e o fracasso juntos. A dor e a alegria; a partida e a chegada. Momentos em que nos aproximamos e momentos em que nos afastamos. E tudo tem um final. E tudo se inicia. Isto é o máximo com que devemos nos preocupar.

A voz interior agora está se dirigindo àquela parte de nós que insiste em desenhar nas paredes das nossas prisões. Um grafite escuro a seguir os contornos daquilo que ainda não existe; não existe mais ou nunca existiu. Uma escrita com a qual cada um fará sua relação das coisas que fazem o coração bater. Na esperança de um dia ter a quem oferecer. Senão, simplesmente rasgá-la... como se desliga a luz... como se apaga a vida. De toda forma, haverá, algum dia, uma última poesia.
 
(R. Moran)
Da série: Coisas a dizer: para quem foi e quem vem  depois...
 
 
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sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Estátuas

Estátuas
 
Entre amargo e silente
no inverno em que estou
este é o único presente
que eu mesmo me dou...
 



No jardim secreto que surgiu, enquanto pelo mundo corria,

onde pássaros não se explicam e flores não são só cores,

havia duas estátuas nuas a se tocarem, intensas e exatas

de bocas amantes envolvidas, voluptuosas e agradecidas.



Era noite e primavera, e a lua derretia um brilhante fio

nos corpos marmóreos úmidos de tímido sereno caído

que tímido ficava ao tocar a superfície de pedra esculpida

feitas de duas estrelas tutelares, de sal e do cristal dos mares.


Enquanto pensava o que se pensa neste contemplar à vida

aparecestes por sobre este jardim, em sonora e silenciosa alegria

surgindo por entre visões do céu, em nácar de orvalho trêmula

trazendo à luz um sorriso, onde o sonho ousou pensar um motivo



E no equilíbrio do silêncio, o peito nutria a duração de tua presença

num fio de respiração, o lábio do sentimento unia-se ao teu apetente

e extenuada nossa fome, deitada de olhos fechados ficavas no peito meu

e deitados dormíamos unidos, até próxima noite, em estátuas convertidos


Por ali algumas noites permaneci, sem passado, presente ou futuro

e a ti, Deusa do humor volúvel, fui como nunca ninguém foi ou será

e inebriado com teus olhos de primavera e muitas coisas acontecidas

sonhei caminhos sem saber, como era fácil pela seta do silêncio morrer



E uma noite – sem motivo ou aviso – se deu coisa estranha e dolorosa

em que transtornada fizestes para sempre o jardim destituído de glória

uma noite sem lua, em que dissestes que tudo é efémero e passa alhures

porque em ti um tempo triste, enevoado e profundo, há muito persiste



E nesta noite fatídica, em que se anuncia o fim do sentimento vivido

cresceram nuvens sobre a lua, quedaram as flores, cessaram os cantos

caíram os olhos do meu olhar, e foram ao chão com os mitos de pedras

e no sopro da noite deserta, deitadas às sombras, à última estrela encerra


Hoje é inverno na alma, e sem tristeza, circunspecto por perda e saudade,

por vezes me debruço no muro do jardim silencioso e vazio em que estão:

mutiladas flores; a primavera abolida; o solo escuro; os pássaros calados;

e as partes ao chão, perfeitas e ordenadas, de duas estátuas quebradas.


(R. Moran)
Da série: Coisas a dizer: para quem foi e quem vai chegar depois...


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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Depois do ensaio...


Depois do ensaio
 
 


 
Vivo um momento ímpar em minha história. Nunca estive tão fodido e nunca estive tão imerso em um insight pleno de vida. Profundo. Misterioso. Profano.

 Mas ondas apenas batem e vão? Olho no espelho, e o que vejo são cúmulos de perdas e achados mágicos. E a dor nunca foi tão grande por entender. Quais são os limites do homem? Constantemente a ciência pergunta. Sem nunca ter respostas concretas, avanços continuam na medida do escoar das horas universais. Mas pergunto eu diante do espelho: quais são as limitações do homem? Seus gargalos, onde a luz se estreita, o bico se afina no funil do tempo... Onde estes passos nos levam? Estamos cientes dos danos causados ao outro e principalmente ao escuro e fundo de nossas almas? Perguntas que batem em muros de contenção do ego e rechaçam em forma de fogo frio, que inundam por nossas bocas, atravessam com gosto de fel o palato, tergiversam pelo peito em notas dissonantes e depois se queimam no ácido de nossas palavras interiores. Sufocados pelo próprio vomito de pura bílis mental. Desgastados. Incompatibilizados. Desestruturados. Tudo proporcional ao quanto de cegueira nos impomos, O quanto dizem o que vestir, por onde andar, onde ir... mas nunca nos pedem para voltar. Ao útero; o berço no nascimento das vontades. Vontades conflituosas que nos são colocadas desde o princípio: os conceitos duais; o claro e o escuro; em cima e embaixo; este é verde, o outro é amarelo; um é bom, o outro é mal... o prazer e a dor. Mas ondas batem e depois vão, porém antes depositam algo em nossas praias. E pode ser um pequeno grão de areia, como concha coral. E então... um dia percebemos que a desestruturação ajuda a desconstruir o mundo criado pela vontade dos outros. Que o desgaste é natural para a rocha, pela ação das tempestades de vento que sopram e aparam as arestas. Ainda que para isso transcorram séculos... 

E a alegria nunca foi tão grande pelo aparente sofrer – eu sou um otimista de fato, antes de tudo. E antes que alguém questione que deveria ter começado pela frase anterior, dizem que a ordem dos fatores não altera o produto. Assim, não há diferença entre começar e terminar. Tudo que começa, termina. E quando termina, é que tudo começa. Verdade. Encantamento. Magia. Os momentos ímpares, que são únicos, e por isso mesmo não são duais. Um, dois ou três... frações de um Todo. O quanto é o limite do Todo? Justamente, não existe um limite. Isso eu já descobri. Falta apenas você chegar. Ter esperanças e dizer isto todos os dias... é o que resta para quem semente dorme, e espera em agonia novo despertar. Por hora, cansei de tentar explicar aos muros.

 

(R. Moran)
 
(Da série: Coisas a dizer... para quem foi e quem vai chegar depois)
* texto escrito domingo, 14/10, à noite. Magicamente, hoje algo inusitado aconteceu. Penso que é hora dele ser publicado.
 


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quinta-feira, 5 de julho de 2012

Do outro lada da tempestade


    Do outro lado da tempestade
    (da série: Coisas a dizer...)

“Já não sinto amor, nem dor, já não sinto nada
Socorro, alguém me dê um coração
Que esse já não bate, nem apanha
Por favor, uma emoção pequena
Qualquer coisa
Qualquer coisa que se sinta
Em tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva...”

Arnaldo Antunes


Quem és para assumir tantas formas? O que se desvela por trás da dor, por trás do medo? O que somos neste jogo; insano; de vida e de morte? Tua natureza, teus tons, tuas cores... Tua fonte de tudo que está por nascer. Tua morte, que tudo capta e recapta.



Tudo se resume em ultrapassar a linha, o ponto crítico. O fim é o princípio de tudo. E no meio de tudo estou eu, debruçado sobre a amurada de proa envolto em águas encapeladas e selvagens, vivenciando mais uma tempestade. Que perdura há vários dias. Onde tudo que posso fazer é esperar. E espero a glória. A misericórdia. A Paz. Verdade. Espero que alguém traga calma ao meu espírito, entendimento, coragem para prosseguir. O coração satisfeito. Mas o Tudo que tenho agora são nuvens escuras, e a névoa que se precipita sobre mim. Das ondas que se quebram fragorosas sob o casco, fustigando incessantemente.


Você é do bem? É gentil? Uma pessoa correta? Você se guia por isso? É amada? Saiba que não irá sofrer menos por causa de tua bondade. Saiba que eu também não. Mas podemos nos fortalecer mutuamente, amenizar a dor, limparmos as feridas e calarmos o pranto... seguirmos.



Quem decide quem irá sofrer? Quem decide quem irá sorrir? Quem dirige este grande teatro da vida? Não entendo esse personagem... o homem. É incrível como sei pouco sobre esse papel exercido pela humanidade. Talvez descubra um dia. Entender ao menos sua natureza primária, seus anseios básicos que os levam a se comportar desta ou de tal maneira ajudaria. E quem sabe assim conseguir compreender porque todos têm possibilidades das quais; mesmo que inconscientes; vislumbram, e no entanto se recusam a ver, a procurar. Mas se aferram em sombras e solidão; a autoestima exacerbada sendo o inimigo real e a fonte da miséria do homem. Renunciando ao conhecimento silencioso pelo mundo da razão. E quanto mais se agarram ao mundo da razão, mais efêmero se torna o misterioso e o mágico da vida. Por hora, há um leve consolo em levantar a cabeça ao céu profundo, de ver a noite riscada pelos raios fosforescentes através dos olhos do espírito. O que ameniza um pouco a minha falta de compreensão.



O amor é um dom ou uma maldição? Ele é lenitivo ou um castigo? De onde ele vem? Se eu não te encontrar nesta vida, deixe-me ao menos sentir tua falta. Saber de tua existência...



Me questiono se a vida sob um luar límpido é apenas um sonho. O diabo realmente existe e as pessoas são realmente más? Acho que estão apenas equivocadas. Penso que tudo é uma questão de percepção, e não acredito que exista bem ou mal. No fundo tudo é uma coisa só. O mal é apenas o bem em sua forma latente. Sei que a percepção do que vejo, escuto, toco, cheiro e provo é apenas uma visão do mundo antes do mundo. E os olhos... os olhos são bem mais do que um mero sentido. Ver está em enxergar além das aparências. E não se permitir ficar louco diante das visões do incognoscível. Daquilo que ainda não podemos entender. Mas apenas o fato de ver nos dá a certeza de que exista algo além de nossa compreensão. E deveria bastar para acreditarmos. Para nos instigar a persistir em busca de respostas. Mas somos incongruentes, e somos falhos em nossa concepção de vida. Acreditamos na força do átomo, na lei da gravidade, no obtuso do consumismo, do Poder em ter, na praticidade dos atos. Tudo futilidade. Porque não acreditamos no essencial...



Que mundo solitário! Um dia me perguntaram: “Você sente solidão?” e respondi: “Apenas quando estou cercado de gente. Apenas de gente...”



Sinto a força do grito dentro de mim. Quero gritar que estou só, só, só... Mas de que adianta? Quem irá querer escutar? Não há expectativas se não existir a esperança. E este é um sentimento do qual ainda não nos apropriamos devidamente, ainda que se ouça muito falar. Mas se fala em bocas vazias, se cala em almas rasas que se recusam a aprofundar, a tocar e serem tocadas. O que significamos para quem não nos conhece? Nada. E mesmo quando conhecem, significamos quase nada. Porque somos egoístas, somos centrados apenas em nós, no nosso ego. Galileu, Copérnico e todos outros estiveram errados: o homem é o centro do Universo! Cada homem sendo seu próprio universo; assim acreditam. E os outros... os outros são meros coadjuvantes neste cenário. Por isso a pouca importância que damos à vida como um Todo, ao nosso semelhante.


Você ainda acredita na beleza divina? Como manter a integridade? Como fazer para não nos esfacelarmos? Ainda vejo uma centelha dentro de ti. Existe esperança, quero acreditar...



Quando um homem está ferido se pensa que não há nada além de dor. Que a morte tem a palavra final. E que ela está rindo dele. Eu olho além da dor e vejo a glória. A redenção. Provo do próprio sangue e vejo algo sorrindo através de mim. Porque afinal tudo é uma mentira. Tudo que ouvimos e vemos dos homens. É tanta coisa abjeta! Por isso vivem numa prisão. Uma enorme prisão ambulante. E tudo que querem é que estejamos mortos em vida. Ou dentro da mentira deles. E aí só nos resta fazer uma coisa: precisamos ultrapassar a linha, acharmos algo dentro de nós mesmos. Um caminho, uma rota, um oceano para navegar... longe de toda essa insanidade, essa guerra. Não se trata de uma fuga. É antes um ato extremo de desespero, de sobrevivência. É nossa tentativa de nos mantermos íntegros. De não nos contaminarmos mais com a amargura, toda a dor e todo esse sangue que escorre pelas mãos dos homens.



Você está comigo? Não me deixes perder. Não me deixes trair meus princípios. Deposito minha fé em ti...



Oh, minh'alma querida, queria lhe explicar que algo se transforma dentro de nós com toda essa guerra, dor, todo esse sangue, sujeira e escuridão. Existe um amargo no peito, uma acidez nas veias que corroí lentamente se permitimos aos homens ditarem nossos rumos. Somos envenenados por todos aqueles que nos maltratam, sem ter um porquê que possa ser entendido ou que faça sentido. Não importa o quanto nos preparamos, o quão cuidadosos sejamos na condução dos passos, é uma questão de princípios; ou a falta deles; se somos ou não irremediavelmente entorpecidos pelo desacreditar, pelo desamor. E uma questão de sorte, eu diria, se feridos de morte conseguimos sobreviver. Por isso luto para me manter inteiro... por ti. Como te alcançar? Ainda não sei... talvez ainda não seja o tempo. Será bom chegar depois de um longo navegar em um lar, e me emocionar com um pequeno gesto, uma palavra, um cheiro, um sorriso. E talvez então lhe conte uma estória que se levanta das profundezas, que fale sobre um marinheiro que foi empurrado à margem do mundo, que tanto é um homem bom quanto um facínora, mas que nele se revela sua alma interior, com todas as qualidades e defeitos. Contarei quantas voltas ele deu ao mundo em busca de seu porto. Então, como numa liturgia em que ninguém precise ser iniciado, falaremos com os olhos e o coração além do significado das palavras e das frases. Um olhar, e minha vida estará em tuas mãos...


Venha comigo agora. Se eu chegar primeiro, te espero lá. Do outro lado da tempestade, além das nuvens escuras...





(R. Moran)
  • todos os direitos reservados ©

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Canto


Canto

(Da série: Coisas a dizer...)


Canto com desvelo teu nome

espalhando notas ao vento

abrigando dentro do peito

o que nem o tempo consome



Canto somente o que não se pode ver

sílabas etéreas, fluidas como ar

Escorregando em denso mar de prata

perpetuando o desejo de amar.



Canto por ser a última tentativa

da nossa extrema vontade bordando

de mãos atadas, juntas e estendidas

– Ah! Minha alma a ti está cativa.




(R. Moran)



* todos os direitos reservados ©

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Embarcados


EMBARCADOS



“Quando tu vieres sem amargura,

entre as mulheres seja armadura

Entalhadas vontades, palavras sem metades

Crio um fim,de frente pra ti, diferente Sim

Eu crio sem fim, num fio em mim”
(da série: Coisas a dizer...)


Enfim louco. Enfim fora da fila. Enfim redimido. Enfim em paz. Porém, não mais sozinho. O mundo se esconde no crepúsculo, mas há uma luz interna em mim que clareia a noite. Fecho os olhos e é fabuloso ver a vida pelos olhos do espírito da noite, dia a dia, testemunhando o que é espiritual nas pessoas. Viver... um olhar é o bastante. Abro os olhos. Testemunhar, dar fé do caminhar, reunir os cacos quebrados, juntar e rearranjar as partes se moldando em algo novo a cada vez; permanecer no sentido, sentindo todo o peso do conhecer; rompendo com a presença de laços a me unir à terra. Mas agora retorno provisoriamente. Estive dentro tempo suficiente, ausente do viver mundano tempo suficiente. Tempo suficiente fora de padrão. Novamente piso em chão, depois de muito navegar. Prometo tentar ser familiar a todos, suspeito para ninguém. Nem sempre conseguirei, eu sei. Direi algumas palavras e procurarei entender à todas as línguas. Assim será enquanto estiver.

Mundo... aqui estou; um estranho; e ainda assim tudo me é tão familiar. Vendo a cada passo, a cada lufada de vento, a cada corpo abrigado da chuva por baixo da sombrinha, todo um universo condensado em véus. E admirando as possibilidades e caminhos por trás de cada véu. Houve um tempo em que admirei os homens; os reis e os generais. Foi há muito tempo atrás, quando ainda não sabia que os homens são cruéis, que matam amores, que destroem vidas.


Fecho os olhos de novo; abro os olhos fechados. Eu olho para cima e o mundo surge diante de mim e preenche minha alma, meu coração. Então até as pedras criam vida. E eu vejo as cores, vejo as luzes. Luzes de raios de sol na tarde que vai, luzes de neon no céu da noite que cai. Ao trabalho então! Passear, andar, ver e olhar. Sem me esquecer da minha condição errante. Enfim fora; dentro do mundo.

Mas triste constato que nada mudou. A grande maioria das pessoas continuam na fila. São bois indo para o matadouro. Apenas porque a maioria assim está. Todos sabem; ainda que inconscientes; do fim. O fim é a morte em vida. O fim dos sonhos, do acreditar, do Ser, da capacidade de amar. Um dia amanhecemos, olhamos no espelho e já estamos velhos; o tempo passou e nada restou. E tudo que construímos, não serviu de nada? Serviu... um pouco. Filhos, carreira, dinheiro, bens materiais. E nos contentamos com esse pouco, quando há tanto para se descobrir além das aparências. O mundo é misterioso e insondável, e em nossa cegueira simplesmente o ignoramos. Mas há riscos no caminho, e é mais cômodo permanecer com a maioria. Por isso temos medo de sair da fila. Porque se é difícil sair, mais difícil ainda é permanecer fora. Sair da fila não é salvaguarda de nada; não se tem qualquer garantia. Quando saímos nos descobrimos sós. O pasto é imenso, o perigo espreita e ninguém à vista a primeira vista. A humanidade é cruel; e os que ficam gritam para que volte. Não querem sair e não querem que ninguém saía. Porque isto incomoda. Ando pelas ruas e as pessoas estão sempre correndo, sempre com pressa, coisas muito importantes à fazer. Todos são muito práticos, todos muito sensatos, todos muito sérios, todos muito “pés no chão”. Sempre olhando para baixo; no máximo no nível da rua; mas nunca olhando para cima. Por isso primeiro saí da fila, por isso depois me afastei do pasto. Por isso me fiz ao mar. Para não ter que ouvir os gritos loucos pedindo para voltar. Para não ser parte daquela loucura coletiva. Antes um louco só do que mal acompanhado. Mas foi muito difícil... e quase sempre solitário. E quando pensei “– enfim alguém para enfunar velas comigo”,quase naufraguei.


Recordo das tempestades. A chuva, os relâmpagos e os trovões no céu. E no mar, as ondas gigantes, o vento boreste fustigando; os sinais; a fúria do tempo. Por dias e dias. Me recordo certa noite de sexta-feira; de repente uma luz surgindo a bombordo, enquanto corria em linha reta sobre a água, às vezes se virando, talvez devido à alegria. Parecia me guiar, parecia livre, e pude rir de novo com ela. E a tempestade deu mostras de enfraquecer. Entretanto, de repente a luz começou a correr em zigue-zague, e raios caíram. Com isso começou outra história, e o que se pensava calmaria, era apenas o olho do furacão. Então fui arremessado de um lado para outro, sem conseguir entender, e quase sucumbi diante de tamanha força de vento. Minha nau praticamente destroçada; eu em frangalhos. E a única coisa a me manter à tona d'água sendo o sonhar acordado. Posto que em tempestades não há tempo para dormir, nem tampouco sonhar. Mas sonhava, não o onírico que coabita nossas mentes confusas. Mas sim sonhos de querências, de reais possibilidades. Sem entretanto estar cego. Meu coração ainda batendo. Sobrevivendo.

Quem você se tornou? Já não sei mais. Espero pela foto revelada e ela vem com outro rosto. Como devo viver? Talvez esta não seja a pergunta. Como devo pensar? Tudo tão vazio, tão incompatível. O vazio e o medo. O medo, o medo do medo, o medo de ter medo. Por que tanto medo? Penso que temos o direito de ter medo sem temer o medo. Torná-lo um aliado e não um inimigo. Que caminha a minha direita. Por que então insistimos em edificar este mundo de ilusões, estas paredes internas de falsa proteção; a nos proteger do quê? Somos bestas-feras, e ao nos enclausurarmos nesta terra, alimentamos nosso próprio monstro. Que aos poucos nos devora, e nos consome, e nos corroí de tudo aquilo que um dia chegamos a acreditar. E você pode tentar fugir, mas sempre vai esbarrar nas paredes. E corremos em círculos. As pessoas estão sempre correndo em círculos. Algum dia irão colidir. E fingimos que somos sérios, que somos empreendedores, que somos práticos. Às vezes, só o que importa é ser prático. Fora disso, nada. Fingimos que somos racionais, fingimos não ter emoções; fingimos que dirigimos nosso automóvel; fingimos ver a tarde que cai, a noite que chega; fingimos viver; fingimos que o trabalho é mais importante que tudo; fingimos que oramos e perdoamos nossos pecados, fingimos que perdoamos os pecados do outro; fingimos que pescamos um peixe; fingimos que não precisamos de ninguém; fingimos que somos felizes. Fingimos sentar à mesa; comer e beber. Vinhos servidos em tendas no deserto; linguados em baixelas de prata. Afinal, o que é ser prático? O que é ser racional? O dinheiro traz a felicidade? Como devemos viver? As mentes confusas e perdidas em meio a este grande maya. Adeus ao mundo por trás do mundo!


Já me cansei demais com quem não merece meu cansaço. Chega de pensar em séculos passados, em discussões inúteis e em agulhas partidas. O que devo fazer? Não mais pensar, apenas estar. Estar em um dia de cada vez. Quero experimentar o delicado da vida. Quero tirar os sapatos debaixo da mesa, quero ter uma febre de verão, melar os dedos no pote de mel, me emocionar com uma simples refeição, com o contorno doce de um pescoço, quero sentir o sorriso de alguém em especial. Por fim “Encontrar” ao invés de “buscar”. Sem me encantar somente com as coisas espirituais. Ser humano, na medida em que formos sérios ao sorrir, em dizer verdades brincando. Me recorde, musa, do palhaço imortal, que abandonado pela plateia, perdeu seu sorriso! Ele, que de anjo da alegria que era, tornou-se apenas um mímico ignorado e ridicularizado. Ajude-me a resgatá-lo lá de fora, nos limites da terra de ninguém, e trazê-lo de novo para dentro de mim.

O tempo cura tudo ou o tempo é uma doença? Muito se acaba quando se está apenas começando, por não acreditarmos que possa ser bom demais para ser uma verdade. Por outro lado nos atemos aos fatos extintos, como se a dor ainda existisse. Recusamos a abandonar o passado, nos lastimando pelo perdido e ignorando o achado. Perpetuamos aquilo que não nos serve, que é descartável, de forma tola e frívola. Desprezamos o que é nobre, o que é essencial em nossas vidas, na sua forma simples e feliz. Supomos ares de superioridade, quando na verdade estamos nos inclinando para continuar vivendo. Olhando para o próprio umbigo e deixando de perceber todo o resto. Somente olhando o vazio, o tamanho vazio...
Quando era criança, queria ser um pirata, um capitão dos mares. Singrar sozinho por oceanos; gloriosamente sozinho. E cantar para as ondas. Na minha voz cantante que me sustenta. Naquele tempo, a criança que havia em todos nós imaginava claramente o paraíso, e agora só consegue suspeitar como é. Quando éramos apenas crianças, era o tempo das perguntas: por que o céu é azul, por que a noite cai, quando nasceu o tempo, onde acaba o espaço? Um dia ouvi uma palavra estranha: Stromboli. A criança que havia em todos nós um dia teve um pesadelo, mas agora o temos a toda hora. Naquele tempo víamos beleza em tudo, mas agora raramente. Somos tão práticos que não temos tempo para futilidades. Quando éramos apenas crianças, brincávamos com entusiasmo, e hoje tal entusiasmo só acontece com o trabalho, com o dinheiro. O entusiasmo era tanto que víamos passagens secretas, portos e aberturas para outras dimensões em uma simples enxurrada de chuva e um barco de papel. A criança que havia em todos nós tinha um extenso oceano de vivências para descobrir, para navegar, mas agora fincou âncoras em terra e se esqueceu que um dia teve um barco. E o oceano primitivo secou, e só restam pequenas gotas de chuva no presente. E para onde foi o restante de toda aquela água? Por que há somente este grande vazio onde antes havia tanta vida? Não podíamos sequer imaginar o vazio, e hoje estremecemos com a ideia. Por que todos não enxergamos; tal qual as crianças; os portos, as passagens e as aberturas que existem para fora desta fila, deste terra caótica? Se todos vissem, haveria uma miríade de mundos diferentes, haveria uma série de histórias sem desamor ou dor.

A vida e suas dores? Penso que se não as tivesse sentiria falta. Porque além disso existem outras formas de sentido. E precisamos de parâmetros para definir os eixos, os dois lados da moeda. Existe o belo, e a beleza está nas coisas simples. As primeiras gotas de chuva, nadar numa cachoeira, o vinho e o pão, o murmúrio das folhas que caem, a cor das tardes, o voo noturno, o vaso de flores, a toalha na mesa, a mesa posta, o sonho dentro do sonho, a mulher amada dormindo ao lado, o horizonte pacífico, o vento no rosto, o ar que anuncia o frio do inverno.

Assim descobri que não nascemos para navegar sozinhos. Por mais glorioso que sejam os oceanos de vivências, somos parte de um Todo, e a falta daquilo que nos falta é doloroso. Por isso tanta ânsia em ter com quem compartilhar, tanto desejo. O que há de errado com o amor, que sua aspiração não dura tempo suficiente para ter sua história contada? Devo desistir? Se eu desistir, então uma contraparte minha perderá sua outra face. E se isso acontecer, então o amor também perderá sua possibilidade de manifestação. Desisto da batalha, mas não da guerra. Não enquanto não encontrar algo que perdure e que seja complementar ao meu elemento fogo.

O que sei? Sei tão pouco, talvez porque seja apenas somente curioso. Algumas vezes me equivoco pensando porque escrevo como se estivesse falando com outra pessoa. Com alguém que está por vir. Talvez por ser um desajustado.

Desajustado. Das muitas faces, uma pequena parte dizendo que sim, as outras partes gritando que não. Esta poderia ser o início de uma história... as faces. Gostaria de ver uma face, uma determinada face. Esperei uma eternidade para ouvir uma palavra amorosa. Alguém que dissesse simplesmente: “Te amo tanto agora.”. Desejando... Desejando. Desejo uma onda de amor que me invada, que me inunde sem sufocar. E é isso que me faz desajustado; a ausência do complemento deste desejo. Desejo de amar. Não devo chorar, as coisas são como são. Acontece, e nem sempre é como se deseja. Devo então partir definitivamente do mundo de terras liquefeitas?

Não posso ir assim... tenho tanto para fazer. Escrever uma nova história, me transmutar... Descobrir que sou, quem me tornei. Sou um homem melhor do que era antes? Não sei dizer quem sou. Não tenho a menor ideia. Mas sei que me tornei em algo melhor. Um homem sem raízes, sem nação, sem uma fila para seguir. Estou aqui, sou livre. Posso imaginar tudo o que quiser. Tudo é possível! E agora preciso ao menos fazer o que minha atenta observação me ensinou, como dar um sorriso que se sustenta, sentir o alento de uma respiração ao lado meu, observar e me maravilhar com a mágica da vida. A cruz do Sol. O Leste distante. A Luz da Noite. O Norte do mundo. A Grande Ursa. O Oeste selvagem. O Delta do Nilo. O Sul diamante. Os olhos de uma Criança. A Rosa dos Ventos. O Beijo que se estende no Tempo.

Minha admiração não mais pertence aos generais ou aos reis, mas sim aos instrumentos de paz, todos igualmente conduzindo a um estado permanente de amabilidade. O gesto do olhar é tão válido quanto o colar das bocas unidas. Percebo agora que este relato me atenua dos problemas presentes e me salva de um futuro amargo. Me afasta da fila. E é preciso ir além.

Só os oceanos nos levam mais além. Só as rotas novas nos levam mais além. Onde fica a passagem para estes mares? Mares e oceanos também possuem passagens secretas, e é só ali que começa meu navegar, minha rota do conto e do encontro.

Agora vou me jogar ao mar. Agora ou nunca; a hora da nau. Basta erguer os olhos e me converto novamente no oceano. Que me entristece a visão dos homens em terra. Visto minha jaqueta de almirante. É excelente, e só tem um bolso descosturado. E não existe um porto seguro que tanto buscava: só existe a a nau e apenas enquanto estiver no mar. Agora compreendo. Entrarei na nau do tempo, e é lá, no meio deste oceano de vivências que estará meu legado, meu amor. É lá que lançaremos âncoras e faremos nossa morada. Âncoras em terra? Que bobagem! Terra não é lugar para âncoras. Elas foram feitas para fundear no fundo do mar, enquanto pescamos marlins e dourados para a ceia. Adoro a ideia de um novo navegar. Isto é um bom sinal. O sol já está se pondo. Claro, pelo oeste. Agora ao menos sei aonde está o oeste em terra. Sempre me acostumei a olhar o oeste pela amurada de estibordo, navegando ao rumo sul. Subo ao passadiço e o sol está se pondo a frente de mim. E a estrela guia surgindo a direita. Muito bem: o sol e a estrela. Lembro-me não sei porque de Stromboli: será uma ilha ou um vulcão? Nunca me disseram. Lá a frente é um cirrus ou um cirrostratus? Por que gritam tanto da praia? Não querem que eu parta. Não querem ninguém longe da fila. Que gritem, não faz nenhuma diferença. Olho a frente e me deixo arrastar ao oceano universal. De novo o sentimento de bem-estar! Como se dentro do peito uma mão se fechasse suavemente. Me conduzindo a um destino, a um rumo.

Agora sei que este destino está além do horizonte. Não encontrarei minha contraparte aqui, na terra dos homens tristes. Já estive sozinho por muito tempo, mas nunca vivi sozinho. Estive com pessoas, e quase sempre era feliz momentaneamente. Mas ao mesmo tempo toda essa transitoriedade era vaga, nunca completa. Por isso sei que me aguardas de forma perene e gostaria de poder ver teu rosto agora, apenas olhar nos teus olhos e dizer o quanto é bom “Sentir”. Apenas tocar seu rosto e comentar casualmente: “- Como está frio!” ou “- Veja como existem tantas coisas belas!”. Gostarei quando tu aqui estiveres. Gostarei quando puder falar contigo olhando nos teus olhos. Porque em mim, antes de tudo tens um amigo. E quando chegares, irei tomá-la em meus braços, e tu me tomarás em teus braços. E não temerei mais as tempestades. Na crista de cada onda, desejando uma onda mais alta. Em cada trovão, desejando um faiscar maior. Só porque estás aqui; tua presença como um manto me cobrindo da fúria do tempo. E quero saber tudo. Tudo! Descobrir tudo que há em ti. Aí está a graça. E tu irás me ensinar tudo aquilo que ainda não aprendi. Não existe nenhuma história mais importante que a nossa. A do homem e da mulher. E saberemos que existem outras Luas além daquela que está no céu. Me olhe, não me veja apenas. Me dê a mão, não um contato apenas. Hoje é Lua nova, e o mar está mais calmo. Por todo o oceano não correrá sangue esta noite. Agora somos mais do que “nós”. Não só o mar que habitamos, mas todo o mundo se converte em nosso navegar. Agora somos o tempo. Somos únicos, unos. Nós embarcamos!



(R. Moran)

Abr/2012

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