sexta-feira, 17 de maio de 2013

Não haverá despedida


Não haverá despedida


"Somos como forjas em que se funde o ferro para ligá-lo em aço.
Não sem a bigorna e o martelo. E o que é o martelo?
O que é o ferro para ser malhado?
Em que fornalha estão nossos mentes e almas? Que é a bigorna?
Que mão terrível ousará manipular nossos terrores mortais?
As nossas mãos..."

Inspiração e manipulação em William Blake “The Tiger”





Como deixar de ver? Há tanta dor. Todas as pessoas, todas as vidas deles. O tempo todo. Há tanto fingimento, tanta futilidade na forma como vêm a si mesmos e o mundo. Como aguentam? Nascem, estudam, trabalham, casam, têm filhos; ou não; constroem palácios ou casebres, bebem, fornicam, assistem futebol pela TV, se drogam, saem para jantar, viajam pelos pequenos espaços do mundo, escalam montanhas, vão a Lua, tornam a beber, vão a uma peça, conversam animadamente com amigos ao redor de uma lareira e um bom vinho e falam como a vida é boa. Depois morrem sem ao menos nunca, ou quase nunca, se perguntarem: Por que?
Há tanta dor. E não sei como fazer para não notar. Para não ver as marcas do sofrimento estampadas atrás dos olhos, por trás do para-brisa do carro importado ou detrás da taça de cristal ou do copo americano. Vinho ou aguardente, tanto faz, todos irão vomitar algum dia. Alguém pode perguntar: O que tanto te machuca? E respondo que não sou eu apenas. São eles. Todo mundo. Todo o mundo aparente do qual já me cansei e que não vejo graça nenhuma. É como estar indefinidamente em um parque de diversões, e depois de descer milhões de vezes na mesma montanha-russa, depois de girar na roda gigante mais voltas do que trilhões de vezes a órbita do Sol, depois de se cansar de comer tanto algodão doce que seu gosto se torna amarga ao insuportável, o parque deixe de ser divertido para virar uma tortura medieval, um castelo do terror do qual quero sair. A vida é mesmo um grande quebra-cabeças, e as peças estão todas espalhadas diante de mim sem que eu consiga encontrar sentido algum.
Eu sou louco. Mas apenas louco. Não sei porque então pareço sempre machucar as pessoas que amo, sempre fazer coisas que fazem com que me apontem o dedo e digam que andei errado, sempre falar coisas das quais depois todos usam contra mim no tribunal de contas dos homens. Não sei mais o que fazer. Para tirar o gosto amargo da boca, do peito. Para estancar as lágrimas ácidas que caem dos olhos, e queimam, e sangram, e cortam a carne e ninguém vê ou parece se importar. Porque mesmo quando dizem que sempre se importam, sempre é quase nunca, eu aprendi.
Já me deixei contagiar com a essa sujidade, com toda falsidade da condição humana. Não vou mais entrar em detalhes sobre isso, mas vou dizer que houve dias bem ruins. E alguns lindos e poucos inesperados dias. Mas foram apenas migalhas, pequenas porções de ilusão. Como tudo que está ao nosso redor agora, como tudo que vêm tão sólido e que no entanto é capaz de se desmanchar no ar com incrível facilidade diante de meus olhos. Me disseram uma vez que não escolhemos de onde viemos, mas digo que podemos escolher para onde ir. Sei que isso é pouco, mas é o suficiente para começar a juntar as peças deste quebra-cabeças que é viver.
Não sei se terei tempo para escrever mais, porque estarei muito ocupado tentando achar uma “saída”. Então, se este for meu último texto por agora, saiba que estive numa situação muito ruim por diversas vezes, e você de alguma forma me ajudou. Mesmo não sabendo do que eu estava falando na maioria das vezes, ainda que achasse que entendias. Ou conhecesse alguém que já passou por isso. Você, de alguma forma, fez com que eu não me sentisse tão sozinho. Porque sei que existem pessoas que dizem que estas coisas não acontecem. Que há pessoas que se esquecem do que é ser criança quando se tornam adultos. Do quanto pode ser pavoroso ser uma criança num mundo diferente e inóspito, onde o perigo ronda a todo momento e a morte é uma certeza. Sei que tudo isso não passará de histórias alguma hora, e que essas imagens se tornarão apenas fotografias antigas esquecidas em um baú. Melhor assim para todos. Quando seremos apenas uma lenda. As lendas que nascem da necessidade de se decifrar o indecifrável. As memórias que devem se contentar de seu delírio, de sua falta de rumo. A loucura que nos protege, como a febre. Acepção de um conceito de vida que nos conduz inevitavelmente a nós mesmos, aos nossos meandros interiores, sendo a loucura a forma que encontramos para lidar com o incompreensível. Mas neste momento, estas imagens não são histórias. Isto está acontecendo. Eu estou aqui olhando para elas. E apesar de tudo elas são lindas. Há uma beleza mórbida e triste permeando tudo, mas ainda assim – belas. Eu consigo enxergar. Este momento que você sabe que nem tudo é uma história triste. Eu estou vivo ainda. Eu me levanto e vou até a janela e vejo as luzes dos prédios, há uma rua lá embaixo, uma lua crescente acima e tudo que sempre me fez perguntar: Por que? Então vejo uma imagem: uma música toca ao fundo, contemplo a noite e o espaço, e sei que estou nesta nave chamada Terra se deslocando no espaço a mais de dois milhões de quilômetros por hora. E neste passeio, estou com a pessoa que mais amo neste mundo. E neste momento, eu juro... nós somos infinitos!

Por hora eu vou. Sem pressa de partir, nem tempo de chegar. Mas sei que sigo, e tudo que me espera é o inesperado. Porque para mim, só resta percorrer os caminhos que tenham coração. Por isso, não haverá despedida. Apenas um eterno reencontro...

(R. Moran)
16/05/2013
23:24 hs




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sexta-feira, 5 de abril de 2013

Sonho do Andarilho


Sonho do Andarilho(um possível prólogo)




– A VISÃO – “O Olhar ao mundo”


I. Na ilha (O Onírico)

Vejo. Estou em um trecho de praia. Há uma réstia de luz empalidecendo os espectros que formam a multidão a minha volta. Pondero que seja o entardecer. O mar é revolto e quebra com força na areia próxima.
A noite avança rapidamente. Agora o céu é negro. Nuvens cobrem toda a extensão do firmamento. Não há lua, ou pelo menos sua luminosidade não se faz presente.
Os espectros; pois é assim que os vejo; são pessoas nitidamente desesperadas. Olham em direção ao mar, agitam os braços, põem a mão na cabeça, gritam apesar de não ouvi-las.
Estou calmo. Observo o mar. Monstros pré-históricos revolvem as águas a minha frente. No céu pterodáctilos voam.
Apesar da escuridão, diviso uma ilha a frente. Não está mais do que 600 metros da praia.
            - Preciso ir até lá. – Digo a ninguém em especial.
         Não tenho medo. Entro na água e não sinto frio. Tampouco os animais me assustam ou me atrapalham. Nado em linha reta ignorando as águas revoltas ou a correnteza do mar. Chego a ilha. A ilha é um promontório rochoso. Sua extensão é de aproximadamente 200 metros. No centro, uma construção quadrada ocupa todo espaço. Suas paredes são cinzas. O teto é reto; não tem telhas. Apenas uma porta de madeira velha dá acesso ao interior. Depois, não há senão mais rochas, o mar e a escuridão.
Caminho em direção a porta. Vejo que não há trancas ou fechadura. Abro e entro. Um longo corredor está à frente. À direita e a esquerda inúmeras portas. Ando e abro uma aleatoriamente. Outro corredor e mais portas.
        A luminosidade é fraca. Lâmpadas mortiças permeiam o teto de laje. Percebo que o interior da construção é maior do que o externo permitia vislumbrar. Não entendo e também não me importo com este detalhe absurdo.
           Após sucessivas portas e corredores perco a noção de direção; não sei para onde estou indo, onde está a saída. Estou em um labirinto; é fato. Outra porta e outro corredor. Porém neste diviso um vulto ao fundo. Caminha lentamente em minha direção, as mãos cruzadas atrás. Olho com interesse e curiosidade. E só.
            Para a uma distancia de dois metros. Agora posso ver seu rosto. É homem; aproximadamente 1 , 80 m. Sua roupa é cinza escuro. Nos pés velhas botas militares. Seu rosto é anguloso, todo enrugado, com manchas pardas e verrugas peludas. Isto onde a barba espessa e suja permite divisar. O sorriso que chega não tem sentimentos. É falso, assim como seus olhos, que são amarelos e permeado de veias injetadas e finas. A boca é sem cor, lábios finos e cortados nos cantos. Os dentes também amarelados e cariados. A cabeça parece um ovo. Os cabelos são ralos e desgrenhados, exceto acima das orelhas onde um tufo denso de cada lado lhe empresta um ar desequilibrado. Sobrancelhas espessas se unem por sobre os olhos.
            -Quem é você? – pergunto.
         -Eu sou ninguém! – exclama ele incontinenti – Ou talvez seja você. Mas posso ser o palhaço. E agora?
             Agora percebo o nariz de palhaço. Sei que não estava ali antes. Simplesmente apareceu. Começo a ficar inquieto. Percebo o medo se avizinhando. Não respondo sua pergunta. Apenas faço outra.
             -O que faz aqui?
          Também não me responde. Afasta as mãos das costas lentamente. Na esquerda uma longa faca pende e displicente brilha na luz tênue. Agora estou apavorado. E corro. Novamente a sucessão de portas e corredores. Não olho para trás. Mas pressinto sua aproximação. Um novo corredor e avisto uma porta vermelha. Talvez por ser diferente ou porque assim tem que ser; abro e entro.
            Saio diretamente em um picadeiro. Adiante arquibancadas e atrás uma parede cinza. Não há outra porta. Corro até o ultimo degrau, viro e me encosto na parede, ofegante. Vejo a porta se abrir e ele entra. Agora não corre, sabe que não tenho aonde ir. Caminha lentamente de novo e começa a subir. As mãos pendem ao lado do corpo. A faca esta lá, do lado esquerdo. No rosto o sorriso estático, o olhar fixo em mim. Aproxima-se até o degrau inferior da arquibancada, mas mesmo assim seu olhar é retilíneo ao meu.
              Então me diz por entre um esgar de riso amarelecido:
              -Eu sou o principio e o fim em si mesmo.
           Não digo nada. O pavor é absoluto. Ele levanta o braço esquerdo, lançando-o atrás da cabeça. Percebo a força brutal do golpe quando o braço é arremetido para frente. Acordo.


  • (sonho verídico ocorrido com o Andarilho de quatro para cinco anos.Este pode ter sido o princípio da consciência ampliada. Mas houve mais antes...)

    (R. Moran)


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segunda-feira, 25 de março de 2013

Reflexões do Tempo II

Reflexões do Tempo II
 
         A vida é cíclica, é fato! Imersos na poderosa Roda de Sansara, vamos conjecturando os fatos que se repetem, até que entendamos sua necessidade de desprendimento das formas-pensamento que nos agrilhoam ao passado. E por ser cíclica, por ser poderosa, por sermos ainda o aro desta roda a girar interminavelmente, nos deparamos vez por outra com os fantasmas do passado. E percebemos que, ainda que semelhantes, são diferentes na forma como absorvemos sua dor... cada vez mais tênue, cada vez menos infectante, menores as cicatrizes. E então a mágica acontece... um dia acordamos e não nos lembramos mais porque pensávamos que aquela dor era tão importante. E se ela insiste em nos afrontar, se ela insiste em se repetir a despeito dos personagens diferentes, percebemos que nossa capacidade de contraponto é maior na medida em que incorporamos o martelo e a bigorna na forja a nos moldar em algo melhor. O aço para brilhar necessita de muito fogo a arder, muito repicar de martelo na mesa de ferro que é nosso existir. Março era um desses fantasmas a nos torturar. Mais uma vez março voltou. Mais uma vez a dor se repetiu no mesmo palco. Mas desta vez algo mudou. Talvez seja o calejamento a tornar a casca dura. Talvez seja uma forma-anjo que se prenuncia.Talvez seja uma amiga, pessoa ou palavra, que nos encontra numa esquina e nos ensina que viver vale a pena, que o amar vale a pena. Penso que, de verdade, seja o conjunto de tudo isto e de muito mais que não adivinho. Por isso março não assusta mais, não assombra mais, não atormenta mais...
 
 
 


Inquieta despedida




Atravesso as tábuas em ruínas

do que foi meu porto um dia

Deixo atrás doloridos abismos

e um viver que só a ti destinas
 

- por mais, não sofrerei!


Me afasto da dor que era constante

de braços dados ao silêncio e ao tempo

na fria cova de março permanece

o meu querer ora morto, ora distante


- por mais, não chorarei!



Vais cada dia mais longe de mim

e por mares noturnos em que navego

do que eras clara e tonta alegria

restou a sombra de um sonho ruim


- por mais, não sonharei!


Nesta inquieta e calada despedida

sigo partindo sem marcas de volta

e pelo silencioso perigo deste mar

vou por rota incerta, desconhecida


- por mais, não desesperarei!


O tempo navegado não se pode calcular

por espumas da vida e furiosas tormentas

à procura de braços e desejo de calmarias

sigo incontinente tentando encontrar

um novo porto, um novo lugar


- por mais que não, chegarei!



Março/2012
(R. Moran)
Da série: Coisas a dizer... para quem foi e quem vem depois


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sexta-feira, 8 de março de 2013

Reflexões do Tempo I

Reflexões do tempo I


Existem tantas coisas escritas na alma que não cabem em mim... e por vezes transbordam em letras vermelhas no branco do papel. São vertidas no silêncio da noite, na solidão da calma e no escondido das horas.  Nascem sem pedir licença, abruptas, e chocam por vezes pela crueza com que se mostram. Assustado pelo reflexo interior de mim mesmo, cubro o espelho e me resguardo. Aos poucos porém, um crescente incômodo se faz presente. Do incômodo passa-se a dor, até que não é possível mais ignorar aquilo que grita e necessita sair dos muros. Aos murros brota das fendas do pano esgarçado pelo tempo, e convertido em símbolos renasce para com suave alívio transmutar o que era aflição. Assim posto, posto nesta série de reminiscências de um passado que insiste entre fazer e diluir,o cunho das marcas e cicatrizes que vão n'alma de um louco e apaixonado pela vida poeta...
 
 
 

 
Nada e Tudo



 


Já lhe foi dada a esperança, mas a mim, sim!

– muita fúria, calúnia, insensata descrença.

No vento frio da lembrança que sopra e não retorna

desfaz-se como pétalas mortas de existência

teu rosto que se descolore e pálido perde a forma!



Já lhe foi dada a crença, mas a mim, basta!

– Do gosto amargo dos venenos humanos

à mais pura taça a verter a dor que entornas.

Por detrás de acusações tortas, fechas a porta

para a paixão que se vai... e triste não volta!



Perdidas as horas pelas casas do relógio,

se longe vais, oh madrugada, porque tardas o dia?

Os açoites que acompanham teus passos que partem

não escondem as sombras que lhe fazem companhia

e cobrindo a luz de teus olhos, teu brilho esmaecem.



Tudo leva o roldão do tempo, tristes lábios que calam

sussurros em campos longos e vagos que desaparecem

Longe, longe, ocultas em desvão solitário da alma

antigas lágrimas guardadas escorrem e depois passam

como flores que o inverno apaga e depois esquece.



E em nova noite que nasce e nada é insensato

do brilho da Lua ao crer em sonhos que crescem

meus sentidos de calma urgência vão a me dizer: 

 
- que Nada é o que ficou para trás,
 
- que Tudo é o que a frente me compesce.
 
Maio/2012
(R. Moran)

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sexta-feira, 1 de março de 2013

O Andarilho: Diálogo

O Andarilho: Diálogo
 





Andava pelo Vale das Sombras quando soube seu destino:

- “Como?” Perguntou o Sol indiferente para as areias.
- “Vendo.” Disse o corvo que adejava suas asas sobre o precipício.
- “Quando?” Perguntou a Lua para as estrelas  pálidas no céu.
- “Logo.” Disse o vento para as dunas melancólicas, escorregando por olhos vermelhos.
- “Quem?” Perguntou a nuvem que começou a verter lágrimas esquecidas.
- “Eu.” Respondeu o Andarilho, tão só quanto o deserto.
- “Por que?" Perguntou o rio, que de tão seco corria flutuando sobre pedras.
- “Pelo conhecimento.” Disseram os espinhos que dilaceravam as mãos daquele que colhia a única flor.
- “Onde?” Perguntou o trovão sem som, reverberando na fosforescência da alma.
- “Aqui.” Disse o Andarilho que parando suspendeu seu pensar... 

Depois que a Noite avançou selvagem sobre a vastidão do mundo, seguiu seu caminho sem olhar para trás.


(R. Moran)
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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Pelas ruas do Santa Tereza



Pelas ruas do Santa Tereza



Eu estava machucado e deprimido

Eu não entendia o que eu sentia

Eu estava irreconhecível

para mim mesmo, pela dor

Eu vi o meu reflexo num espelho

E não conheci meu próprio rosto

Ah, irmã, você me encontrou a morrer

pelas ruas do Santa Tereza



Depois que você partiu

Eu andei pelas avenidas

Até que minhas pernas doessem

Eu ouvi as vozes de antigos amores

há muito idos, não mais sentidos

Agora a noite escuto o sangue

pelas minhas veias

e ele é negro e sussurrante

como a chuva ácida que cai

pelas ruas do Santa Tereza


Nenhum anjo virá nos receber

Somos só nos dois agora, minha amiga

E os meu sentimentos não

cabem mais em mim

Eu andei até não conseguir mais

Só para tentar fugir deste corpo

e encontrar um refúgio para a dor



A noite caiu, eu estou vivo

Eu não quero me sentir morrer mais

então me receba agora,minha amiga,

Com seu beijo fiel

E ficaremos assim,

um ao outro, sozinhos,

pelas ruas do Santa Tereza

 




Adaptado de Streets of Philadelphia, Bruce Springsteen



R. Moran

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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Dias ruins


Dias ruins


* Como tantas outras coisas guardadas na alma,escrito em algum lugar do passado ...




"Amor eu sinto a sua falta
E a falta, é a morte da esperança
Como um dia que roubaram o seu carro
Deixou uma lembrança
 
Que a vida é mesmo
Coisa muito frágil
Uma bobagem
Uma irrelevância
Diante da eternidade
Do amor de quem se ama..."

Nando Reis

Tenho um pequeno baú, e nele sonhos antigos. Tenho uma mochila com uma escova de dentes e um pente. Tenho oceanos para mergulhar e redes que tento driblar. Tenho muitas noites e tantas palavras por dizer. Tenho ninguém para me escutar. Tenho um incêndio que me consome por dentro. Tenho inúmeros canais de merda para escolher na TV. Tenho ausências e caminhos escuros dentro de mim. Tenho um sexto sentido e incríveis poderes de observação.

Assim soube, que quando tentasse nos desvencilhar das redes,  escutaria um Não! Tentando impedir de nadar para longe, distante do passado que sufoca, muito além das águas circundantes. Algumas vezes penso que sou um. Outras que estou temporariamente louco. Quando a taça se partiu? Como pôde tratar assim o que não tinha preço?

Quando criança, vi de relance pelo canto do olho que existiam muitos mundos. A criança cresceu e alguns mundos se foram. Não devo mais tocar nisso agora. Hoje tenho uma caixa de lápis de cor e um papel para desenhar. O que não tenho no momento é inspiração. Já tive um coelho e sentimentos de menino. Hoje eu tenho um carro e a amargura de homem. Tenho olhos brilhantes e ferozes. E também um forte desejo de voar. Mas para onde voar?

Oh, amor, quando finalmente rompo as redes, o oceano seca e eu me debato sem ar. Noite após noite, o amor se acinzenta, como a pele de alguém que está morrendo. Seguimos a vida, fingimos que está tudo bem, mas envelhecemos, e o coração ficou mais frio. O que aconteceu? Alguém mais aqui se sente como eu me sinto? Seus lábios se movem, mas não posso mais escutar o que dizem.

Quando criança, tive uma febre e meu corpo inchou como um balão. Hoje tenho uma imensidão na alma e uma fome insaciável a preenchê-la. Eu tenho uma janela e uma rua silenciosa para contemplar. Tenho uma tempestade se aproximando, tenho o fio de uma navalha afiada me cortando. Apertando como um torniquete, seco como um forno funéreo. Todas as chamas já se apagaram, mas a dor permanece. Eu venho em ondas. Eu tenho um barco, o rumo é que por hora perdi...


Não te assustes, é uma fase passageira, um dos meus dias ruins...


(da série: Coisas a dizer... )



(R. Moran)

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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Algumas coisas a dizer...


Algumas coisas a dizer(antes que o tempo acabe)



Todos nós estamos à beira do precipício. Todo o tempo, toda hora. Um penhasco que todos iremos saltar um dia. Onde haverá um momento de escolha. Mas nossa escolha não é sobre isso. A escolha é se queremos ir a força e gritando ou se queremos abrir nossos olhos e corações para contemplarmos o que acontece enquanto caímos. As pessoas gostam de analisar as coisas que lhes causam medo. Para olhar para elas e dar nomes. Os religiosos procuram a Deus, os cientistas as evidências e os fracos que não sabem lidar com seus espectros, a bebida, o isolamento químico ou outro refúgio qualquer para a dor. Todos de alguma forma buscando resolver o mistério da vida, para se livrarem do medo. Ou para suas almas ficarem suficientemente entorpecidas e ausentes onde nada mais os alcance, assim pensam.

Quando se faz alguma coisa que não se pode voltar atrás, algo que você não compreende, você procura se segurar naquilo que compreende. E quando isso não basta mais, pode-se simplesmente desistir e esperar a morte ou superar-se na busca de um sentido além de todas as coisas que você compreende. Porque se você acreditasse que tudo que você teve que fazer foram coisas certas, teria que encontrar uma razão. Mas o que acontece quando você acha as razões e elas não são as suas razões? Como você encontra algum conforto e sentido nisto? Quando se é apenas uma marionete nas razões e sentidos das sombras...

Muitas pessoas perdem as esperanças de que qualquer coisa possa mudar em suas vidas depois de um tempo. Apenas levam suas vidas, dia após dia, e se algo acontece que as torne diferentes, elas provavelmente nem conseguem notar, exceto por um sentimento incomum ou muitas vezes desagradável. Por que são avessas as mudanças... mesmo se for para melhor. É incrível como o ser humano se apega a tudo, incluindo as coisas ruins. Principalmente as ruins, pequenas ou grandes.

O mundo é feito de grandes coisas e de pequenas coisas. A parte mais insensata e quando damos o nome de “grande” e “pequena”. Porque quando algo nos acontece, quando perdemos alguma coisa ou alguém com quem nos importamos, isto é tudo para nós. Não interessa se o mundo está acabando. Nada mais é tão importante quanto nossa perda. Porque ela nos mostra o quão mais e mais solitários ficamos a cada dia.

Quando eramos apenas crianças, tudo que queríamos era que as estórias e os contos de fada fossem verdadeiros. Sabíamos que isto não iria acontecer, mas bem no fundo torcíamos para que de alguma sorte estivéssemos enganados. De alguma forma sabendo que a magia estava ali, em algum lugar, escondida. Trata-se de esperança. O natal, por exemplo, se trata de esperança. Quando a criança que havia em todos nós contemplava a árvore de natal, esperávamos ansiosos por novos brinquedos. As pessoas envelhecem, os brinquedos são maiores, mas no fundo a esperança persiste. Pena que ela não seja a mesma. Porque alguns até esperam a paz na terra, alguns poucos podem desejar o amor; um amor sincero; ou talvez um amanhã melhor, qualquer que seja sua ideia disso. Mas a maioria das pessoas só querem mesmo algo mais luminoso, brilhante, caro e novo. Na tentativa de suprimir o imenso vazio que se expande nos confinados muros interiores. Na falta da crença naquilo que realmente importa.

As pessoas acreditam no que elas querem acreditar. Encontram o significado do que podem e se apegam a isso. No fim, não importa muito se é verdade ou um torpe engano. O que importa é apenas no que acreditam. A vida pode ser como um passeio de montanha russa. Existem altos e baixos. Tem grandes sustos, manobras rápidas, lentas, frio na barriga, emoções e um lugar onde tudo acaba. A diferença é que na montanha russa você sempre volta ao ponto em que começou, e na vida você está em um ponto totalmente diferente daquele que embarcou.

Todas as pessoas buscam de algum modo acreditar que têm o controle sobre suas vidas E na maior parte do tempo, realmente acreditam estar no comando. Mas é quando algo acontece que se lembram que o mundo obedece suas próprias regras e não a dos homens, e que estamos aqui apenas de passagem. Somos todos mortais. Poucos de nós realmente conseguem entender o que se passou; a maioria sente apenas que não houve tempo suficiente. Tempo para conhecer ao outro, tempo para amar, tempo para sonhar e tempo para viver.

O que nos faz humanos? Poder pensar? Sentir, viver, rir e chorar... Como podemos experimentar a alegria ou a dor? Raiva... Nós podemos machucar e nós podemos fazer rir e nós temos um passado e um presente. E, de algum modo... um futuro. E talvez, uma das coisas que nos faça humanos, é o fato de sabermos o suficiente para pensar que não nascemos para estar sozinhos. Que possa existir alguém que nos compreenda na forma e na essência que somos. Mas infelizmente, muitas vezes estamos cegos e incapazes de perceber a sorte que se nos apresenta. Estamos limitados pelos muros de nossa prisão interior, agrilhoados ao sofrimento, sem conseguirmos olhar para fora.

As pessoas estão sós neste mundo por diversas razões diferentes. Muitas têm algo em sua disposição; outras talvez só tenham nascido muito mesquinhas... outras por terem nascido muto carinhosas. Porque manifestar carinho nestes tempos pode ser visto como inadequação. Outras ainda são levadas a esta condição por algumas circunstâncias. Como uma calamidade ou por um coração partido. Ou qualquer outra coisa desventura que tenha acontecido em suas vidas cujo resultado não esperavam. E ao invés de se desvencilharem disto, se agarram a estes momentos e a eles se entregam em um eterno sofrer. E se fecham para tudo... para novos momentos, novas oportunidades. As pessoas estão sós neste mundo por muitas razões diferentes. A única coisa que sei, é que, não importa o que qualquer uma delas possa dizer... ninguém quer estar sozinho.

Muitas pessoas não apreciam ou não sabem apreciar o carinho ou a generosidade existente no outro. Também são incapazes de ver a tristeza em alguém. Por estarem elas mesmas tão tristes, tão tristes, mas tão profundamente tristes, que a única coisa que conseguem é sorrir e dizer à todo mundo que estão bem e são felizes. Sem enxergarem a si próprias, o que dirá enxergar ao outro...

Existem algumas coisas que não compartilhamos com qualquer pessoa. Todos temos nossos medos e segredos. E tristezas... Eu não me importaria se alguém visse em mim a tristeza. Talvez fosse o princípio para que também pudessem enxergar uma certa beleza, um gesto de mãos ou uma disposição carinhosa. Uma vez aconteceu comigo. Mas não com o resultado que esperava. Porque nada é tão simples. Em tempos comuns, os homens comuns levam vidas simples em meio à coisas comuns. Mas estes não são tempos comuns. É tempo de dor, de morrer e talvez de renascer se tivermos suficiente poder pessoal.

Tudo que precisamos saber está aqui, agora. O sucesso e o fracasso juntos. A dor e a alegria; a partida e a chegada. Momentos em que nos aproximamos e momentos em que nos afastamos. E tudo tem um final. E tudo se inicia. Isto é o máximo com que devemos nos preocupar.

A voz interior agora está se dirigindo àquela parte de nós que insiste em desenhar nas paredes das nossas prisões. Um grafite escuro a seguir os contornos daquilo que ainda não existe; não existe mais ou nunca existiu. Uma escrita com a qual cada um fará sua relação das coisas que fazem o coração bater. Na esperança de um dia ter a quem oferecer. Senão, simplesmente rasgá-la... como se desliga a luz... como se apaga a vida. De toda forma, haverá, algum dia, uma última poesia.
 
(R. Moran)
Da série: Coisas a dizer: para quem foi e quem vem  depois...
 
 
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sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Estátuas

Estátuas
 
Entre amargo e silente
no inverno em que estou
este é o único presente
que eu mesmo me dou...
 



No jardim secreto que surgiu, enquanto pelo mundo corria,

onde pássaros não se explicam e flores não são só cores,

havia duas estátuas nuas a se tocarem, intensas e exatas

de bocas amantes envolvidas, voluptuosas e agradecidas.



Era noite e primavera, e a lua derretia um brilhante fio

nos corpos marmóreos úmidos de tímido sereno caído

que tímido ficava ao tocar a superfície de pedra esculpida

feitas de duas estrelas tutelares, de sal e do cristal dos mares.


Enquanto pensava o que se pensa neste contemplar à vida

aparecestes por sobre este jardim, em sonora e silenciosa alegria

surgindo por entre visões do céu, em nácar de orvalho trêmula

trazendo à luz um sorriso, onde o sonho ousou pensar um motivo



E no equilíbrio do silêncio, o peito nutria a duração de tua presença

num fio de respiração, o lábio do sentimento unia-se ao teu apetente

e extenuada nossa fome, deitada de olhos fechados ficavas no peito meu

e deitados dormíamos unidos, até próxima noite, em estátuas convertidos


Por ali algumas noites permaneci, sem passado, presente ou futuro

e a ti, Deusa do humor volúvel, fui como nunca ninguém foi ou será

e inebriado com teus olhos de primavera e muitas coisas acontecidas

sonhei caminhos sem saber, como era fácil pela seta do silêncio morrer



E uma noite – sem motivo ou aviso – se deu coisa estranha e dolorosa

em que transtornada fizestes para sempre o jardim destituído de glória

uma noite sem lua, em que dissestes que tudo é efémero e passa alhures

porque em ti um tempo triste, enevoado e profundo, há muito persiste



E nesta noite fatídica, em que se anuncia o fim do sentimento vivido

cresceram nuvens sobre a lua, quedaram as flores, cessaram os cantos

caíram os olhos do meu olhar, e foram ao chão com os mitos de pedras

e no sopro da noite deserta, deitadas às sombras, à última estrela encerra


Hoje é inverno na alma, e sem tristeza, circunspecto por perda e saudade,

por vezes me debruço no muro do jardim silencioso e vazio em que estão:

mutiladas flores; a primavera abolida; o solo escuro; os pássaros calados;

e as partes ao chão, perfeitas e ordenadas, de duas estátuas quebradas.


(R. Moran)
Da série: Coisas a dizer: para quem foi e quem vai chegar depois...


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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Depois do ensaio...


Depois do ensaio
 
 


 
Vivo um momento ímpar em minha história. Nunca estive tão fodido e nunca estive tão imerso em um insight pleno de vida. Profundo. Misterioso. Profano.

 Mas ondas apenas batem e vão? Olho no espelho, e o que vejo são cúmulos de perdas e achados mágicos. E a dor nunca foi tão grande por entender. Quais são os limites do homem? Constantemente a ciência pergunta. Sem nunca ter respostas concretas, avanços continuam na medida do escoar das horas universais. Mas pergunto eu diante do espelho: quais são as limitações do homem? Seus gargalos, onde a luz se estreita, o bico se afina no funil do tempo... Onde estes passos nos levam? Estamos cientes dos danos causados ao outro e principalmente ao escuro e fundo de nossas almas? Perguntas que batem em muros de contenção do ego e rechaçam em forma de fogo frio, que inundam por nossas bocas, atravessam com gosto de fel o palato, tergiversam pelo peito em notas dissonantes e depois se queimam no ácido de nossas palavras interiores. Sufocados pelo próprio vomito de pura bílis mental. Desgastados. Incompatibilizados. Desestruturados. Tudo proporcional ao quanto de cegueira nos impomos, O quanto dizem o que vestir, por onde andar, onde ir... mas nunca nos pedem para voltar. Ao útero; o berço no nascimento das vontades. Vontades conflituosas que nos são colocadas desde o princípio: os conceitos duais; o claro e o escuro; em cima e embaixo; este é verde, o outro é amarelo; um é bom, o outro é mal... o prazer e a dor. Mas ondas batem e depois vão, porém antes depositam algo em nossas praias. E pode ser um pequeno grão de areia, como concha coral. E então... um dia percebemos que a desestruturação ajuda a desconstruir o mundo criado pela vontade dos outros. Que o desgaste é natural para a rocha, pela ação das tempestades de vento que sopram e aparam as arestas. Ainda que para isso transcorram séculos... 

E a alegria nunca foi tão grande pelo aparente sofrer – eu sou um otimista de fato, antes de tudo. E antes que alguém questione que deveria ter começado pela frase anterior, dizem que a ordem dos fatores não altera o produto. Assim, não há diferença entre começar e terminar. Tudo que começa, termina. E quando termina, é que tudo começa. Verdade. Encantamento. Magia. Os momentos ímpares, que são únicos, e por isso mesmo não são duais. Um, dois ou três... frações de um Todo. O quanto é o limite do Todo? Justamente, não existe um limite. Isso eu já descobri. Falta apenas você chegar. Ter esperanças e dizer isto todos os dias... é o que resta para quem semente dorme, e espera em agonia novo despertar. Por hora, cansei de tentar explicar aos muros.

 

(R. Moran)
 
(Da série: Coisas a dizer... para quem foi e quem vai chegar depois)
* texto escrito domingo, 14/10, à noite. Magicamente, hoje algo inusitado aconteceu. Penso que é hora dele ser publicado.
 


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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Ensaio de uma vida anunciada


Ensaio de uma vida anunciada


Se o Sol explodisse agora, só teríamos conhecimento do fato após oito minutos, porque é o tempo que sua luz leva para viajar até nós. Por longos oito minutos o mundo ainda estaria no lugar, iluminado e quente, seguindo seu fluxo habitual. Então haveria um flash... e depois viria a onda de choque, radiação, calor, ondas eletromagnéticas... e tudo deixaria de ser. Mas se alguém pudesse saber disso no instante em que ocorresse, o que faria nestes oito minutos restantes? Ligaria para alguém que fosse importante para ela; abraçaria um estranho na rua; escreveria um breve poema; iria chorar e se arrepender de coisas que fez; iria chorar e se arrepender de coisas que não fez; desejaria simplesmente caminhar de mãos dadas nestes últimos instantes; contemplaria o céu admirando sua beleza, sabendo que era a última coisa que iria ver; desejaria poder beijar alguém em que houvesse amor verdadeiro; tomaria um sorvete; ficaria nu; gritaria desesperada ou calmamente se permitiria sentar e esperar o espetáculo final?

Para onde caminhamos, para onde estamos indo, ainda é uma pergunta em aberto. Mas penso que deveríamos ter o bom senso de questionarmos mais sobre tudo o que nos ensinaram até agora. Sobre o status quo determinado pela sociedade e a forma como temos vivido. Tem valido a pena? Somos felizes com toda a tecnologia disponível, o materialismo e os padrões impostos? Ou vivemos angustiados, sem entendermos a inconsistência dos atos dos homens e suas consequentes mazelas? Sem compreender o porque de mesmo tendo tanto, sentimos um profundo vazio? Este todo que temos e que ainda é muito pouco, pelo pouco que intuímos necessitar realmente.

Há tanta intolerância, tanto descaso pela vida humana, tanta preocupação com o próprio bem estar que não medimos as consequências dos atos na busca desenfreada pela ganância e pelo lucro. Mas não compartilhamos todos da mesma terra, do mesmo sangue? Não deveríamos caminhar juntos ao invés de correr atabalhoadamente batendo cabeças? Fatos que nos levam a considerar a possibilidade de caminharmos rumo a autodestruição, sem nenhum controle próprio, como meros passageiros em um carro sem volante e sem freios descendo ladeira abaixo.

Não há nada na história do homem que se compare ao modo como a consciência é controlada hoje. A ciência moderna e o capital dizem que não há tempo para se perder. Tudo é racional e prático. E o sagrado; e o divino que se esconde em nós; e os sonhos grandes e pequenos; e os devaneios de quem deseja tão somente amar e ser amado? São futilidades. A menos que se possam monetizá-los de alguma forma, não tem valor algum. Claro, sonhos não enchem barriga... mas tampouco o dinheiro enche a alma com aquilo que é realmente essencial. Não poderá existir então um meio termo? Uma forma de nos alimentarmos de proteínas para o corpo e porções de alegria para nosso espírito?

Tudo é fictício do prisma em que enxergamos hoje. Todas as pessoas e acontecimentos históricos, os tratados, as convenções, os ritos de passagem e os gritos de falsa liberdade ... pura efemeridade. A que se entender que isto não é uma brincadeira com o sofrimento de quem crê apenas no substancial da matéria. A realidade acachapante do cotidiano que se vivencia é prova disto. Vivemos amordaçados e vendados, e isto é cruel. Mas se quisermos um dia sermos livres para um julgamento íntimo renovador, devemos nos ater às leis próprias do universo e sabermos do imenso potencial de mudança, isto é, sabermos de nós, com nossas infintas possibilidades.

É por isso que existimos. E há isso nos apegamos. No desejo de acreditar nas pessoas. De confiar. E é assim que muitas vezes nos machucamos. Na constatação do entendimento de que só acreditar não basta – precisamos querer ver a verdade, descerrar os véus! E as vezes precisamos deixar as pessoas irem embora, muitas vezes para nunca mais voltarem. Não adianta querer segurar aquilo que não nos compete suplantar. Isto só irá nos atrasar e fazer com o outro se atrase. Porque inevitavelmente um dia todos iremos “ver”. Tudo é questão de tempo. O eterno tempo. Mas existem certas coisas que não podem ser ensinadas. Cada um precisa aprender por si. Só assim podem acreditar. Talvez, em um momento em que tenham mais passado do que futuro, entendam. Mas aí já pode ser tarde demais para se caminhar juntos. As estradas podem conduzir ao mesmo lugar, mas as rotas são diferentes.

Porém, contradizendo todo o pessimismo que possa transparecer, sinto que uma mudança parece estar ocorrendo, e ela está longe da ganância, do materialismo, do ego e do lucro. Alguns já estão reconhecendo outras dimensões da existência, muito mais importantes do que acumular riquezas materiais e bens. Mas seremos suficientes para mudarmos os rumos dos acontecimentos? Acredito que quando se mudar essa perspectiva de vida em uma escala maior, a mudança será total. E para mudar, precisamos começar a transformar nosso interior.

Todos, em maior ou menor grau, sonhamos com viagens ao Universo de nosso mundo interior. O misterioso caminho que nos conduz as reentrâncias sombrias de nosso interior. Ainda que os caminhos se mostrem falhos; sedentos de sangue e sacrifício; teremos que nos dispor a entregar o melhor de nós mesmos; seguindo e sobrepujando as maiores crueldades em favor do insano triunfo da alma humana sobre a miséria do homem. Aceitando em nosso foro íntimo todas as considerações erradas acerca da vida que se mostram nos seres que são da nossa própria espécie; a banalidade do racionalismo científico perante as questões mais profundas do Ser e o ostracismo barroco dos rituais de massa. Porque grande é a vitória do acreditar... de sua vitória sobre a falsidade, o descrer e a intolerância. E mesmo tendo sangue em nossas mãos, é preciso buscar a pureza compartilhada que possa nos dar um novo conceito de vida, longe dos rancores e violências.

Penso que os nossos oito minutos estão se esgotando. Teremos que agir agora! Talvez, se estivermos coadunados com o Universo, esta destruição que se avizinha seja apenas a porta para uma nova consciência global de paz e prosperidade. Enquanto isso, por via das dúvidas, vou tomar um sorvete, andar nu, declamar um pequeno poema, abraçar um estranho e lhe dizer coisas que valham, contemplar o entardecer com os olhos do espírito, não reclamar e nem chorar, beijar o mais que possa alguém que tenha em profundidade o amor como condição de vida. Assim, não importa o que aconteça, poderei dizer: Tudo, absolutamente tudo, valeu a pena...

(R. Moran)
da série: Coisas a dizer (para quem foi e quem vem depois)
* todos os direitos reservados ©