sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Estátuas

Estátuas
 
Entre amargo e silente
no inverno em que estou
este é o único presente
que eu mesmo me dou...
 



No jardim secreto que surgiu, enquanto pelo mundo corria,

onde pássaros não se explicam e flores não são só cores,

havia duas estátuas nuas a se tocarem, intensas e exatas

de bocas amantes envolvidas, voluptuosas e agradecidas.



Era noite e primavera, e a lua derretia um brilhante fio

nos corpos marmóreos úmidos de tímido sereno caído

que tímido ficava ao tocar a superfície de pedra esculpida

feitas de duas estrelas tutelares, de sal e do cristal dos mares.


Enquanto pensava o que se pensa neste contemplar à vida

aparecestes por sobre este jardim, em sonora e silenciosa alegria

surgindo por entre visões do céu, em nácar de orvalho trêmula

trazendo à luz um sorriso, onde o sonho ousou pensar um motivo



E no equilíbrio do silêncio, o peito nutria a duração de tua presença

num fio de respiração, o lábio do sentimento unia-se ao teu apetente

e extenuada nossa fome, deitada de olhos fechados ficavas no peito meu

e deitados dormíamos unidos, até próxima noite, em estátuas convertidos


Por ali algumas noites permaneci, sem passado, presente ou futuro

e a ti, Deusa do humor volúvel, fui como nunca ninguém foi ou será

e inebriado com teus olhos de primavera e muitas coisas acontecidas

sonhei caminhos sem saber, como era fácil pela seta do silêncio morrer



E uma noite – sem motivo ou aviso – se deu coisa estranha e dolorosa

em que transtornada fizestes para sempre o jardim destituído de glória

uma noite sem lua, em que dissestes que tudo é efémero e passa alhures

porque em ti um tempo triste, enevoado e profundo, há muito persiste



E nesta noite fatídica, em que se anuncia o fim do sentimento vivido

cresceram nuvens sobre a lua, quedaram as flores, cessaram os cantos

caíram os olhos do meu olhar, e foram ao chão com os mitos de pedras

e no sopro da noite deserta, deitadas às sombras, à última estrela encerra


Hoje é inverno na alma, e sem tristeza, circunspecto por perda e saudade,

por vezes me debruço no muro do jardim silencioso e vazio em que estão:

mutiladas flores; a primavera abolida; o solo escuro; os pássaros calados;

e as partes ao chão, perfeitas e ordenadas, de duas estátuas quebradas.


(R. Moran)
Da série: Coisas a dizer: para quem foi e quem vai chegar depois...


* todos os direitos reservados ©



quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Depois do ensaio...


Depois do ensaio
 
 


 
Vivo um momento ímpar em minha história. Nunca estive tão fodido e nunca estive tão imerso em um insight pleno de vida. Profundo. Misterioso. Profano.

 Mas ondas apenas batem e vão? Olho no espelho, e o que vejo são cúmulos de perdas e achados mágicos. E a dor nunca foi tão grande por entender. Quais são os limites do homem? Constantemente a ciência pergunta. Sem nunca ter respostas concretas, avanços continuam na medida do escoar das horas universais. Mas pergunto eu diante do espelho: quais são as limitações do homem? Seus gargalos, onde a luz se estreita, o bico se afina no funil do tempo... Onde estes passos nos levam? Estamos cientes dos danos causados ao outro e principalmente ao escuro e fundo de nossas almas? Perguntas que batem em muros de contenção do ego e rechaçam em forma de fogo frio, que inundam por nossas bocas, atravessam com gosto de fel o palato, tergiversam pelo peito em notas dissonantes e depois se queimam no ácido de nossas palavras interiores. Sufocados pelo próprio vomito de pura bílis mental. Desgastados. Incompatibilizados. Desestruturados. Tudo proporcional ao quanto de cegueira nos impomos, O quanto dizem o que vestir, por onde andar, onde ir... mas nunca nos pedem para voltar. Ao útero; o berço no nascimento das vontades. Vontades conflituosas que nos são colocadas desde o princípio: os conceitos duais; o claro e o escuro; em cima e embaixo; este é verde, o outro é amarelo; um é bom, o outro é mal... o prazer e a dor. Mas ondas batem e depois vão, porém antes depositam algo em nossas praias. E pode ser um pequeno grão de areia, como concha coral. E então... um dia percebemos que a desestruturação ajuda a desconstruir o mundo criado pela vontade dos outros. Que o desgaste é natural para a rocha, pela ação das tempestades de vento que sopram e aparam as arestas. Ainda que para isso transcorram séculos... 

E a alegria nunca foi tão grande pelo aparente sofrer – eu sou um otimista de fato, antes de tudo. E antes que alguém questione que deveria ter começado pela frase anterior, dizem que a ordem dos fatores não altera o produto. Assim, não há diferença entre começar e terminar. Tudo que começa, termina. E quando termina, é que tudo começa. Verdade. Encantamento. Magia. Os momentos ímpares, que são únicos, e por isso mesmo não são duais. Um, dois ou três... frações de um Todo. O quanto é o limite do Todo? Justamente, não existe um limite. Isso eu já descobri. Falta apenas você chegar. Ter esperanças e dizer isto todos os dias... é o que resta para quem semente dorme, e espera em agonia novo despertar. Por hora, cansei de tentar explicar aos muros.

 

(R. Moran)
 
(Da série: Coisas a dizer... para quem foi e quem vai chegar depois)
* texto escrito domingo, 14/10, à noite. Magicamente, hoje algo inusitado aconteceu. Penso que é hora dele ser publicado.
 


todos os direitos reservados ©

 

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Ensaio de uma vida anunciada


Ensaio de uma vida anunciada


Se o Sol explodisse agora, só teríamos conhecimento do fato após oito minutos, porque é o tempo que sua luz leva para viajar até nós. Por longos oito minutos o mundo ainda estaria no lugar, iluminado e quente, seguindo seu fluxo habitual. Então haveria um flash... e depois viria a onda de choque, radiação, calor, ondas eletromagnéticas... e tudo deixaria de ser. Mas se alguém pudesse saber disso no instante em que ocorresse, o que faria nestes oito minutos restantes? Ligaria para alguém que fosse importante para ela; abraçaria um estranho na rua; escreveria um breve poema; iria chorar e se arrepender de coisas que fez; iria chorar e se arrepender de coisas que não fez; desejaria simplesmente caminhar de mãos dadas nestes últimos instantes; contemplaria o céu admirando sua beleza, sabendo que era a última coisa que iria ver; desejaria poder beijar alguém em que houvesse amor verdadeiro; tomaria um sorvete; ficaria nu; gritaria desesperada ou calmamente se permitiria sentar e esperar o espetáculo final?

Para onde caminhamos, para onde estamos indo, ainda é uma pergunta em aberto. Mas penso que deveríamos ter o bom senso de questionarmos mais sobre tudo o que nos ensinaram até agora. Sobre o status quo determinado pela sociedade e a forma como temos vivido. Tem valido a pena? Somos felizes com toda a tecnologia disponível, o materialismo e os padrões impostos? Ou vivemos angustiados, sem entendermos a inconsistência dos atos dos homens e suas consequentes mazelas? Sem compreender o porque de mesmo tendo tanto, sentimos um profundo vazio? Este todo que temos e que ainda é muito pouco, pelo pouco que intuímos necessitar realmente.

Há tanta intolerância, tanto descaso pela vida humana, tanta preocupação com o próprio bem estar que não medimos as consequências dos atos na busca desenfreada pela ganância e pelo lucro. Mas não compartilhamos todos da mesma terra, do mesmo sangue? Não deveríamos caminhar juntos ao invés de correr atabalhoadamente batendo cabeças? Fatos que nos levam a considerar a possibilidade de caminharmos rumo a autodestruição, sem nenhum controle próprio, como meros passageiros em um carro sem volante e sem freios descendo ladeira abaixo.

Não há nada na história do homem que se compare ao modo como a consciência é controlada hoje. A ciência moderna e o capital dizem que não há tempo para se perder. Tudo é racional e prático. E o sagrado; e o divino que se esconde em nós; e os sonhos grandes e pequenos; e os devaneios de quem deseja tão somente amar e ser amado? São futilidades. A menos que se possam monetizá-los de alguma forma, não tem valor algum. Claro, sonhos não enchem barriga... mas tampouco o dinheiro enche a alma com aquilo que é realmente essencial. Não poderá existir então um meio termo? Uma forma de nos alimentarmos de proteínas para o corpo e porções de alegria para nosso espírito?

Tudo é fictício do prisma em que enxergamos hoje. Todas as pessoas e acontecimentos históricos, os tratados, as convenções, os ritos de passagem e os gritos de falsa liberdade ... pura efemeridade. A que se entender que isto não é uma brincadeira com o sofrimento de quem crê apenas no substancial da matéria. A realidade acachapante do cotidiano que se vivencia é prova disto. Vivemos amordaçados e vendados, e isto é cruel. Mas se quisermos um dia sermos livres para um julgamento íntimo renovador, devemos nos ater às leis próprias do universo e sabermos do imenso potencial de mudança, isto é, sabermos de nós, com nossas infintas possibilidades.

É por isso que existimos. E há isso nos apegamos. No desejo de acreditar nas pessoas. De confiar. E é assim que muitas vezes nos machucamos. Na constatação do entendimento de que só acreditar não basta – precisamos querer ver a verdade, descerrar os véus! E as vezes precisamos deixar as pessoas irem embora, muitas vezes para nunca mais voltarem. Não adianta querer segurar aquilo que não nos compete suplantar. Isto só irá nos atrasar e fazer com o outro se atrase. Porque inevitavelmente um dia todos iremos “ver”. Tudo é questão de tempo. O eterno tempo. Mas existem certas coisas que não podem ser ensinadas. Cada um precisa aprender por si. Só assim podem acreditar. Talvez, em um momento em que tenham mais passado do que futuro, entendam. Mas aí já pode ser tarde demais para se caminhar juntos. As estradas podem conduzir ao mesmo lugar, mas as rotas são diferentes.

Porém, contradizendo todo o pessimismo que possa transparecer, sinto que uma mudança parece estar ocorrendo, e ela está longe da ganância, do materialismo, do ego e do lucro. Alguns já estão reconhecendo outras dimensões da existência, muito mais importantes do que acumular riquezas materiais e bens. Mas seremos suficientes para mudarmos os rumos dos acontecimentos? Acredito que quando se mudar essa perspectiva de vida em uma escala maior, a mudança será total. E para mudar, precisamos começar a transformar nosso interior.

Todos, em maior ou menor grau, sonhamos com viagens ao Universo de nosso mundo interior. O misterioso caminho que nos conduz as reentrâncias sombrias de nosso interior. Ainda que os caminhos se mostrem falhos; sedentos de sangue e sacrifício; teremos que nos dispor a entregar o melhor de nós mesmos; seguindo e sobrepujando as maiores crueldades em favor do insano triunfo da alma humana sobre a miséria do homem. Aceitando em nosso foro íntimo todas as considerações erradas acerca da vida que se mostram nos seres que são da nossa própria espécie; a banalidade do racionalismo científico perante as questões mais profundas do Ser e o ostracismo barroco dos rituais de massa. Porque grande é a vitória do acreditar... de sua vitória sobre a falsidade, o descrer e a intolerância. E mesmo tendo sangue em nossas mãos, é preciso buscar a pureza compartilhada que possa nos dar um novo conceito de vida, longe dos rancores e violências.

Penso que os nossos oito minutos estão se esgotando. Teremos que agir agora! Talvez, se estivermos coadunados com o Universo, esta destruição que se avizinha seja apenas a porta para uma nova consciência global de paz e prosperidade. Enquanto isso, por via das dúvidas, vou tomar um sorvete, andar nu, declamar um pequeno poema, abraçar um estranho e lhe dizer coisas que valham, contemplar o entardecer com os olhos do espírito, não reclamar e nem chorar, beijar o mais que possa alguém que tenha em profundidade o amor como condição de vida. Assim, não importa o que aconteça, poderei dizer: Tudo, absolutamente tudo, valeu a pena...

(R. Moran)
da série: Coisas a dizer (para quem foi e quem vem depois)
* todos os direitos reservados ©







quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Flores não tão rubras sobre a neve


Flores não tão rubras sobre a neve     

 (da série: Coisas a dizer...)


            Flores trêmulas, descoloridas
            resistem o que podem ao frio
            sorvendo sôfregas fios de sol
            no cabedal do ocaso da estação.
           
            Com humilde melancolia
            vão despojando pétalas rubras
            no branco neve em halos de sangue
            escorridos dos olhos de nuvem.

            Sonolentas, se deixam levar
            ao embalo do vento canção de ninar
            dos flocos que caem em liturgia
            e entorpecem, entontecem, endoidam.

            Aos poucos adormecem
            sonhando com o sol numa cadeira
            abstração de quem pensa na morte
            fim de um ciclo, último fio do rito.

            Sem ter cheiro de chuva, cascas de fruta madura
            zumbido de abelhas, espraiados tons de areia
            ilhas em tapetes de cores, borboletas multicolores
            noites claras lunares, meninos gritando parlendas
            nervuras de trepadeiras, o vivaz limo da madeira
            um besouro solto no chão, a fugaz lagartixa no murro
            a pedra que brilha de lume, prisma etéreo de lua
            da lua zombeira, dos pés esticados da macieira
            do som de realejo grilo, corujas e uivos de cães
            na ausência do sol despertar, caladas de gelo
            se deixam quedar em inerte harmonia
            ao findar de tardes silenciosas e vazias.
                       
            Pois que então sucumbem, inteiras
            em talos raquíticos de altiva renúncia
            quanto mais se despedaçam em cacos
            mais poéticas, inteiras e serenas.
           
            Até que nada reste, só a semente
            para que em um novo despertar vindouro
            saibam florir para não deixar mais
            de estamparem no rosto da primavera
            a esperança de quem hoje espera e dorme em agonia.
           

            (Perguntas então e digo junto:
            - Seremos flores?)
           
            (R. Moran)
* todos os direitos reservados ©

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Do outro lada da tempestade


    Do outro lado da tempestade
    (da série: Coisas a dizer...)

“Já não sinto amor, nem dor, já não sinto nada
Socorro, alguém me dê um coração
Que esse já não bate, nem apanha
Por favor, uma emoção pequena
Qualquer coisa
Qualquer coisa que se sinta
Em tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva...”

Arnaldo Antunes


Quem és para assumir tantas formas? O que se desvela por trás da dor, por trás do medo? O que somos neste jogo; insano; de vida e de morte? Tua natureza, teus tons, tuas cores... Tua fonte de tudo que está por nascer. Tua morte, que tudo capta e recapta.



Tudo se resume em ultrapassar a linha, o ponto crítico. O fim é o princípio de tudo. E no meio de tudo estou eu, debruçado sobre a amurada de proa envolto em águas encapeladas e selvagens, vivenciando mais uma tempestade. Que perdura há vários dias. Onde tudo que posso fazer é esperar. E espero a glória. A misericórdia. A Paz. Verdade. Espero que alguém traga calma ao meu espírito, entendimento, coragem para prosseguir. O coração satisfeito. Mas o Tudo que tenho agora são nuvens escuras, e a névoa que se precipita sobre mim. Das ondas que se quebram fragorosas sob o casco, fustigando incessantemente.


Você é do bem? É gentil? Uma pessoa correta? Você se guia por isso? É amada? Saiba que não irá sofrer menos por causa de tua bondade. Saiba que eu também não. Mas podemos nos fortalecer mutuamente, amenizar a dor, limparmos as feridas e calarmos o pranto... seguirmos.



Quem decide quem irá sofrer? Quem decide quem irá sorrir? Quem dirige este grande teatro da vida? Não entendo esse personagem... o homem. É incrível como sei pouco sobre esse papel exercido pela humanidade. Talvez descubra um dia. Entender ao menos sua natureza primária, seus anseios básicos que os levam a se comportar desta ou de tal maneira ajudaria. E quem sabe assim conseguir compreender porque todos têm possibilidades das quais; mesmo que inconscientes; vislumbram, e no entanto se recusam a ver, a procurar. Mas se aferram em sombras e solidão; a autoestima exacerbada sendo o inimigo real e a fonte da miséria do homem. Renunciando ao conhecimento silencioso pelo mundo da razão. E quanto mais se agarram ao mundo da razão, mais efêmero se torna o misterioso e o mágico da vida. Por hora, há um leve consolo em levantar a cabeça ao céu profundo, de ver a noite riscada pelos raios fosforescentes através dos olhos do espírito. O que ameniza um pouco a minha falta de compreensão.



O amor é um dom ou uma maldição? Ele é lenitivo ou um castigo? De onde ele vem? Se eu não te encontrar nesta vida, deixe-me ao menos sentir tua falta. Saber de tua existência...



Me questiono se a vida sob um luar límpido é apenas um sonho. O diabo realmente existe e as pessoas são realmente más? Acho que estão apenas equivocadas. Penso que tudo é uma questão de percepção, e não acredito que exista bem ou mal. No fundo tudo é uma coisa só. O mal é apenas o bem em sua forma latente. Sei que a percepção do que vejo, escuto, toco, cheiro e provo é apenas uma visão do mundo antes do mundo. E os olhos... os olhos são bem mais do que um mero sentido. Ver está em enxergar além das aparências. E não se permitir ficar louco diante das visões do incognoscível. Daquilo que ainda não podemos entender. Mas apenas o fato de ver nos dá a certeza de que exista algo além de nossa compreensão. E deveria bastar para acreditarmos. Para nos instigar a persistir em busca de respostas. Mas somos incongruentes, e somos falhos em nossa concepção de vida. Acreditamos na força do átomo, na lei da gravidade, no obtuso do consumismo, do Poder em ter, na praticidade dos atos. Tudo futilidade. Porque não acreditamos no essencial...



Que mundo solitário! Um dia me perguntaram: “Você sente solidão?” e respondi: “Apenas quando estou cercado de gente. Apenas de gente...”



Sinto a força do grito dentro de mim. Quero gritar que estou só, só, só... Mas de que adianta? Quem irá querer escutar? Não há expectativas se não existir a esperança. E este é um sentimento do qual ainda não nos apropriamos devidamente, ainda que se ouça muito falar. Mas se fala em bocas vazias, se cala em almas rasas que se recusam a aprofundar, a tocar e serem tocadas. O que significamos para quem não nos conhece? Nada. E mesmo quando conhecem, significamos quase nada. Porque somos egoístas, somos centrados apenas em nós, no nosso ego. Galileu, Copérnico e todos outros estiveram errados: o homem é o centro do Universo! Cada homem sendo seu próprio universo; assim acreditam. E os outros... os outros são meros coadjuvantes neste cenário. Por isso a pouca importância que damos à vida como um Todo, ao nosso semelhante.


Você ainda acredita na beleza divina? Como manter a integridade? Como fazer para não nos esfacelarmos? Ainda vejo uma centelha dentro de ti. Existe esperança, quero acreditar...



Quando um homem está ferido se pensa que não há nada além de dor. Que a morte tem a palavra final. E que ela está rindo dele. Eu olho além da dor e vejo a glória. A redenção. Provo do próprio sangue e vejo algo sorrindo através de mim. Porque afinal tudo é uma mentira. Tudo que ouvimos e vemos dos homens. É tanta coisa abjeta! Por isso vivem numa prisão. Uma enorme prisão ambulante. E tudo que querem é que estejamos mortos em vida. Ou dentro da mentira deles. E aí só nos resta fazer uma coisa: precisamos ultrapassar a linha, acharmos algo dentro de nós mesmos. Um caminho, uma rota, um oceano para navegar... longe de toda essa insanidade, essa guerra. Não se trata de uma fuga. É antes um ato extremo de desespero, de sobrevivência. É nossa tentativa de nos mantermos íntegros. De não nos contaminarmos mais com a amargura, toda a dor e todo esse sangue que escorre pelas mãos dos homens.



Você está comigo? Não me deixes perder. Não me deixes trair meus princípios. Deposito minha fé em ti...



Oh, minh'alma querida, queria lhe explicar que algo se transforma dentro de nós com toda essa guerra, dor, todo esse sangue, sujeira e escuridão. Existe um amargo no peito, uma acidez nas veias que corroí lentamente se permitimos aos homens ditarem nossos rumos. Somos envenenados por todos aqueles que nos maltratam, sem ter um porquê que possa ser entendido ou que faça sentido. Não importa o quanto nos preparamos, o quão cuidadosos sejamos na condução dos passos, é uma questão de princípios; ou a falta deles; se somos ou não irremediavelmente entorpecidos pelo desacreditar, pelo desamor. E uma questão de sorte, eu diria, se feridos de morte conseguimos sobreviver. Por isso luto para me manter inteiro... por ti. Como te alcançar? Ainda não sei... talvez ainda não seja o tempo. Será bom chegar depois de um longo navegar em um lar, e me emocionar com um pequeno gesto, uma palavra, um cheiro, um sorriso. E talvez então lhe conte uma estória que se levanta das profundezas, que fale sobre um marinheiro que foi empurrado à margem do mundo, que tanto é um homem bom quanto um facínora, mas que nele se revela sua alma interior, com todas as qualidades e defeitos. Contarei quantas voltas ele deu ao mundo em busca de seu porto. Então, como numa liturgia em que ninguém precise ser iniciado, falaremos com os olhos e o coração além do significado das palavras e das frases. Um olhar, e minha vida estará em tuas mãos...


Venha comigo agora. Se eu chegar primeiro, te espero lá. Do outro lado da tempestade, além das nuvens escuras...





(R. Moran)
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segunda-feira, 25 de junho de 2012

Sutilezas

Sutilezas
(da série: Coisas a dizer...)







Alguns dizem que somos diferentes dos animais. Porque podemos fazer uma coisa que eles não podem fazer: matar a distância. Não queria que assim fosse... porque implica dizer que os animais são muito melhores que nós. E excludentes do reino animal; dito irracional; devemos ser portanto uma outra espécie de animal: a besta-fera. Que não só mata a distância, mas perversamente, mata de perto, mata de cima, mata de baixo, mata matado, mata morrido, mata queimado, de chão deitado, de caso pensado, mata de mentiras, de subterfúgios, de degredo, de abandono, mata de medo, de corrupção, de concussão, de bem e de mal, de maltrato emocional.
A morte e seu sentimento começa no nascimento, quando expulsos do concupiscente abrigo uterino. Ali choramos – de tal forma conscientes de nossa errática condição humana – sabedores que somos do caminho árduo à frente. Sentimos o peito demasiadamente oprimido e escuro. Falta luz no principiar da vida. O que não quer dizer que à adquirimos em seu decorrer. Deveríamos, mas não o fazemos em nossa maioria por sermos ridículos. Temos um corpo, mas as almas que nele residem não são duas, nem três, nem dez, mas incontáveis almas desesperadas em eterno conflito. O homem é um cacho de faces, de múltiplas facetas, de trama urdida em muitos fios. As antigas sabedorias sabem muito bem disso. Muito se estudou e muito se aprendeu sobre a ilusão da personalidade. Sombrio; ora divertido; multíplice no seu insistente jogo da humanidade, o homem caminha, insano. Estrada da dualidade e do caos. De encruzilhadas, escolhas e decisões. Indecisas em sua maior parte. Erradas por atitudes impensadas e gestos vazios, inúmeras e inúmeras vezes. Até que aprendamos a acertar, a não dar tantas voltas. Mas isto leva tempo.
A uns poucos foi dado, após milhares de anos e estudos, a descoberta da ilusão da condição humana, enquanto que milhares; a maioria da consciência mundana que transige nesta nave Terra; se dão a tanto trabalho para custodiar e fortalecer a mesma ilusão que deveríamos acabar de vez, quando não muito restringir gradualmente. Entendo que esta maioria busque ascender econômica e socialmente falando, em busca de uma vida melhor e de serem felizes. Mas por que então essa felicidade parece não chegar nunca? Quanto mais temos mais precisamos ter para alcançarmos um patamar que só fica cada dia mais longe. É o cachorro correndo atrás do próprio rabo. Deixamos há muito valores importantes para trás e que hoje são tratados como abstratos pela acachapante imposição da realidade prática estabelecida. E que se mostra falida, ainda que relutem em aceitar que algo está errado. Não entendem. Um dia me perguntaram: “Por que não entra no jogo? Há oportunidades e valores para serem conquistados?” Não entendem que têm valor para eles e não conseguem entender porque não têm valor para mim. Status, revolução, drogas, capitalismo, salão de beleza, carro esporte, montblanc, moet chandon, lugar na primeira fila e tudo o mais. Busco ser um ser humano; simples; e é só o que quero ser.
Por isso espero uma mudança. Não que queira uma mudança em massa, porque toda mudança em massa provoca loucura em massa. Há que se considerar, como dito por Nelson Rodrigues, que toda unanimidade é burra. Assim, mesmo à duras penas, prefiro uma mudança sutil e gradual. O que exaspera é a perspectiva de que isso parece estar ocorrendo no sentido contrário. Onde todos procuram respostas onde não existe nenhuma. Porque estão olhando para o lado errado. E existe lado certo? Não, eis o problema. Não existe lado nenhum, mas sim o centro, o interior abstrato de cada um onde se depositam todas as respostas. É uma jornada pessoal, e não é fácil empreendê-la. Mas as pessoas não sabem como viver e o que fazer, e acham que podem descobrir se forem com a maioria desesperada. As pessoas estão muito perdidas. E não quero isso para ninguém. Porque não fomos feitos para sermos bois em fila indo pro matadouro. Ciente que não o fariam espontaneamente, ainda que na sua limitada condição animal. Os bois assim agem porque são direcionados por um predador maior e não têm discernimento do fim que os aguarda ao término da fila. E então se dá o paradoxo.
Alguns podem dizer que somos iguais aos animais. Porque fazemos a mesma coisa que à eles só resta fazer incondicionalmente: caminhar para a morte. Cônscios ou não é mera conjectura individual, pode-se dizer. Queria acreditar que não, já que não temos predadores... o que implica aceitar que somos nossos próprios predadores. E não seremos? Senão vejamos: dominamos o fogo, criamos raízes, já fomos a lua, penetramos no núcleo do átomo; desenvolvemos obras de engenharia e cavamos fosso em busca de água; lançamos sondas espaciais e orbitamos planetas à distância; miniaturizamos o que já era mínimo e cada vez é menor; aceleramos o tempo; encurtamos o espaço; ampliamos nossos conhecimentos sobre a mente para descobrirmos que sabemos muito pouco; e se, quando pouco nos jogam num vazio; quando muito nos chamam de loucos. E damos mostras de que temos capacidades ainda maiores para cometermos atrocidades, vilipêndios e barbáries. É preciso um despertar para um novo estado de consciência, para uma nova realidade, menos fútil, menos aparente e mais sutil.
Eu acredito que o despertar possa acontecer a qualquer um, a qualquer hora, em qualquer lugar. Aprendi isso quando era pequeno. E aprendi também a lidar com coisas estranhas. Porque para mim o Mundo é um lugar mágico. E se pudermos acordar para o real, veremos coisas assombrosas e nenhuma maldade se justificará mais. Nenhuma disputa por poder ou posses fará sentido. As vezes sinto vontade de ir para a rua e gritar para que todos acordem. Mas o homem continua dormindo em seu sonho enevoado de sombras e destempero. Eu ainda não entendo. Na verdade, acho que nunca vou entender. Como seres humanos dito civilizados fazem o que fazem com o seu quintal, sua casa, sua cidade, seu país, seu mundo, seu semelhante? Talvez a civilização esteja ultrapassada. Talvez tenha perdido o compasso. Em nome da praticidade, renunciou ao abstrato, e com isso se afastou do cerne da questão espiritual. Que não pode ser tratada pela pífia e limitada racionalidade humana.
Gostaria de poder me comunicar melhor com meus semelhantes. Falar de coisas simples; da beleza na simplicidade; falar de momentos ímpares, de olhares pares; do riso fácil e da alegria que invade o cair da tarde. Me comunico apenas em um certo nível. Por minha própria incapacidade de me expressar. Mas é que nem tudo se conjectura em palavras tão facilmente quanto gostaríamos. E descobri que não dá para falar nada que não seja “a sério” com a grande maioria. Não entenderiam. Porque todos são muito sérios. Uns acham que vão para o inferno se agirem diferente. E não posso fazer nada para que entendam que não necessita ser desta forma. Não há comunicação nestes níveis.
Temos que adentrar no campo das sutilezas. Na forma e na essência. Temos que querer perceber, temos que ter um olhar além. Temos que duvidar, questionar, perguntar; sem medo de opinar e sermos expostos; de revelar-nos, desobscurecermos, clarearmos a fonte, romper paredes, sairmos do labirinto, da boca da caverna que nos tolhe, e nos prende, sufoca e nos mata. Aos poucos, morrendo assim. Mas chega de falar de morte. Falemos da vida. Porque é disso que estamos falando o tempo todo. Não existe essa dualidade. Por isso somos ridículos. Não percebemos que tudo que morre é para nascer de novo, e de novo e de novo. Tanto quanto for preciso até não ser preciso mais. Há uma evolução em todo o processo, ainda que se mostre lento como o rio que corre para o mar. Por baixo, bem por baixo, percebe-se a correnteza que inexorável vai ganhando força. Somos fadados ao sucesso, somos seres luminosos. Que alguém nos escute, por favor...

Podem dizer que no fundo quero o mesmo que todos. Não seria verdade. Não preciso de tanto poder ou de tanto dinheiro. Posso ficar aqui neste meu caminho, desde que seguindo em frente. Não preciso ser presidente do país ou membro da diretoria. Não preciso subir dessa forma, fazer essa escalada invertida para longe de mim. Está tudo aqui agora, comigo. Ou quase tudo... o que falta, então?
Quero ser Eu em plenitude e encontrar um lugar onde possa manter o equilíbrio e a clareza dentro de mim mesmo. Não como Hamlet: “Ser ou não ser.” Apenas Ser. Onde exista alguém que não entenda porque sou assim, mas queira que eu seja mesmo assim. Onde este alguém não seja apenas uma metade, mas o complemento do Todo em uma unidade. Para que possamos ter o riso fácil de quem não tem mais pressa de chegar. Na sutileza do olhar, do encontro, da magia, das respostas interiores emanadas do calor das bocas silentes, do cair da tarde, do mistério da noite... A noite eterna, que a mim invade agora. Sou notívago, já disse?
(R. Moran)
* todos os direitos reservados ©