quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Sob ou sobre... o que digo.


Esclarecimento do Andarilho


Sob ou sobre? Subserviente ou sobrevivente? Dúvidas que movem respostas e giram o mundo.

Que os anjos escrevam salmos sob meu corpo nu agora...

Alguém em especial veio e me perguntou se era sob ou sobre... e existem duas maneiras de se interpretar. E ambas justificam o sob.

A primeira é sob a pele do Homem. O imo, o interior disponibilizado para impressões e sentimentos.

A segunda, bem, a segunda remete a outros textos, outras histórias... requer mais entendimento. Temos dito sobre a importância da Unidade; sobre buscarmos sermos uno no Amor. Se assim pensarmos, sob meu corpo nu ganha novos contornos de corpos. Posto que a Unidade requer homem... e mulher. Então podemos inferir que sob o corpo está a amada, a metade. E é nela que o poeta quer que os anjos escrevam salmos e todos os trechos de música que cantarem entre nuvens...


(E você, é subserviente do mundo ou dele se faz um sobrevivente?) falando baixinho...


(R. Moran)

* remete ao post: http://andarilhomago.blogspot.com/2011/12/sob-meu-corpo-nu.html
 
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Sob meu corpo nu...




Sim, eu poderia abrir as portas que dão para dentro, mas preferi trancafiá-las para que não entrassem nenhum amor bandido; venturas; muita perplexidade; muito prazer e muita dor; amores desperdiçados; íntimo devaneio; ardente luxúria; flores castas e delicadas, flores lilases, flores vívidas que logo murcham; ausente melancólica e angustioso desfalecimento. Para que estivesses mudo de sentidos, mudo diante de ângulos crepusculares de uma vida.


Não deu. Tu viestes - e arrombando as janelas, permitiu que entrassem todos as luzes noturnas, todos os insetos, teu olhar... E ali prevejo perigos, habilidades amorosas insuspeitadas, espantosas e mortais...e esplendor renascente.


Que os anjos escrevam salmos sob meu corpo nu agora...
(R. Moran)


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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

"O Amor requer prática"


(... da série: Coisas a dizer... para alguém que está por vir.)

O amor é sempre um ato de altruísmo. O ato de amar nasce do doar-se, como o carvão nasce do fogo. Cada amor que nasce, surgido da dor e do cativeiro opressivo de um coração que anseia, é uma história com capítulos, prantos, risos, solidão e desencontros. Quero com isso entrar na possessão infinita de tudo que existe. Da necessidade que temos de nos saber amados. E para isso precisamos entender que não devemos buscar o amor; temos que ser o próprio amor.

Os falsos moralistas, os intransigentes secos por dentro e os ditadores religiosos ensandecidos de ódio, buscam o amor para corrompê-lo, queimá-lo e transformarem-no em pó de estrada. Onde os pés caminham, e pisando não sabem a dor que se avizinha em cada passo, em cada lágrima derramada. Os poetas, loucos e amantes o buscam pela beleza, pelo frêmito e pelo gozo. Ama-me a diversidade da vida; a vida que surge de um novo amor. Seu suave colorido, seu ar madrigal de quem já não tem pressa, a fruta madura diferenciada em toda sua latitude. Mas há que se cuidar, posto que o amor é chama, e como tal pode se apagar. É como um cristal fino, de delicadas formas, que no entanto se quebra quando cai. Mas que jamais morre! Podem encarcerá-lo, ter sua face cuspida e escarnecida, podem molestá-lo e arrastá-lo pelas ruas e avenidas, jogado ao alto mar para que se afogue, dar-lhe uma punhalada certeira no peito e uma salva de tiros... e ainda assim ele sai de todos estes episódios reorganizado em suave taça transbordante, ardendo em uma nova chama e ensejando um novo olhar de patética singeleza.

O amor nasce pequeno. Não devemos confundi-lo com a avassaladora paixão dos amantes, com o ímpeto ressonante dos carnavais, com o arroubo de fé dos combalidos em busca do divino. O amor sempre nasce pequeno! E somos sós ao seu nascer, mas desmedidos insaciáveis que somos por natureza, buscamos seu alimento já nos primeiros segundos de vida. E dele não queremos desapegar. Quando não o temos a nosso prazer, sentimo-nos desamparados e – torpes mesquinhos – desiludidos. Por isso dizemos que o amor é também um vício, que como tal necessita tratamento. Mais que isso, entendimento. Não escolhemos amar alguém por suas posses, sua educação, ou elegância, embora estes possam ser seus instrumentos. Não amamos alguém por seu encanto ou beleza, embora ambos sejam seus servidores. Amamos pelo mistério que ele nos traz, pelo cheiro que inebria, pelo sorriso que nos olha e desperta a fragilidade que há em todos nós. Amamos por assim dizer; pela voz que nos cativa; pela paz ou tormento que ele nos traz. A despeito do que dizem os filósofos e os intelectuais, ama-se pelo que o amor tem de indefinível, de indízivel. Mas não de incomensurável... Ele pode ser medido em sua justa forma, na maneira com que nos contempla por trás do espelho. É quando nos deparamos com nossa imagem reflexa e ela nos diz que estamos irremediavelmente apaixonados por alguém. Este é o berço do amor, sua primeira infância.

E com ele vem a crise do nascimento, no começo alarmante e alarmado do terror metafísico de onde brota o manancial da necessidade de se buscar uma identidade, uma face para o amor. O mesmo manancial que deixa escorrer entre pedras o ciúme leitoso, o ardil de egoísta possessão do que não se deve prender. Por que fazemos isso? Porque somos tolos! Procuramos dar sentido ao que não se pode ser explicar, buscamos um novo alvorecer quando ainda não digerimos o crepúsculo de um entardecer sozinhos sentados num banco de praia. Quando queremos que o outro seja igual a nós, quando tudo que precisamos é que justamente ele seja contrário; nossa cara-metade, a outra face da moeda; nossa contraparte a unirmo-nos ao Todo. Nem tanto “venha a nós”, nem demasiado “ao vosso reino”. Mas superado e entendido o ato de nascer, com ele seguimos.

Aos poucos vamos descortinando seus atos, sua trama. E ele se doa a nós, na proporção em que a ele nos entregamos de olhos abertos. Sem medo de mergulhar quarto escuro, sem acepipes desnecessários, sem estampidos de artilharia bruta; ciúme corrompido e resvalo de trevas ditas em calor de discussões.

É o que pensamos como certo, é o queremos mas nem sempre sendo. Simplesmente por não sabermos o que o palco descortinado nos reserva; que personagens e atos nos conduzirão a verdadeira união. E porque o amor não tem razão. Ou ao menos, não a obedece.

Ele acontece a revelia das convenções, dos ditos desditos populares, do que entendemos como certo. Por sua incerteza, ele nos diz como nos consolidarmos através de uma forma muitas vezes cruel, mas eficiente. A nos provocar, ele nos lança em agonia de ventos de agosto; ele consequentemente nos obriga em algum momento a viver a segunda solidão. E sós, temos a oportunidade de olhar o outro, para depois podermos olhar a frente, juntos. E é assim que o amor tem para nos ensinar como lidarmos com nossas próprias deficiências, como superarmos o obstáculo de sermos limitados e limítrofes em nossa visão de mundo. O que nós entendemos como sendo o mundo; sendo o mundo um para cada um. E o amor como um Todo que é, nos dando a possibilidade de “vermos” verdadeiramente pelos olhos da alma. A nos ensaiar para o grande espetáculo da vida. Para com ele crescermos... na dor do crescimento.

Finalmente, chegamos a maturidade adulta. E aqui cabe especial atenção. O amor não tem freios! Ou ao menos, não deveria tê-los. E é correndo furtivo em pátina de areia que ele nos embala com seu acalanto de maré. Uma hora subindo como coluna pitagórica, outra hora esvaziando-se para recolher detritos que elaboramos e inteligentemente descartamos, outra hora de novo subindo para despejar em nossa praia contas de coral, maresia madrigal e conchas acústicas dizendo do profundo do mar que agora habitamos. Por ser desmedido mar, sentimos necessidade de salvaguardas, de botes a remo a deslizar por sua superfície. E quem disse que o amor é seguro? Quem disse que há garantias? Talvez por isso seu fascínio e destemor – seja bem dito – quando não necessariamente compreendido; apenas aceito. Aceito na simplicidade, na forma pura como é. E como em tudo na vida, chegamos a conclusão que o amor requer práticas para amadurecer e se consolidar. Treinos de escola da vida, de campeonato de beijos, de acertos e desacertos, encontros e desencontros, de treinar, treinar... e teimar. Somos teimosos por natureza, mas apenas quando teimamos em insistir em ato de amor é que transformamos defeitos em virtudes. Há quem passe pela vida sem nunca conhecer o sabor de amar e ser amado verdadeiramente. São ocos de vivências de Eros, vazios de concepção de Vênus. Se nesta fase não superarmos nosso desejo de dominar, se não entendermos que somos o problema e a solução encerrados em um só, se não soubermos o que fazer com todo esse sentimento de areias brancas que insistem em extravasar por nossas mãos, um vazio enorme se fará presente, profundo e permanente em nosso imo.

E para que serve tudo isso dito em papel, essa ladainha barroca que abre a boca mas não canta, esse próximo, fundamental e extenso ensaio de amor? Para absolutamente nada! Quisera eu que este meu canto servisse de lenço e espada; que secassem prantos de dor e fossem armas na luta contra o desamor. Mas a vivência do ato de amar é única. É própria de cada ser, e nada do eu disse fará sentido até que tenha cada um por si só feito esta grande viagem. Uma vez singrado os mares, uma vez desbravadas as novas terras em comunhão de corpos; enfrentado monstros marinhos de querelas, piratas algozes de nossos sentimentos; superadas as grandes ondas que insistem em fazer a pique nosso almirantado galeão... e eis que o espetáculo da vida se mostra em sua plenitude. O amor então se faz grande, profundo e permanente!

Hoje me digo maduro; in facto; me digo pronto para amar. Enquanto Homem que sou; que respira, vive e ama; também quero passar pela crise do nascimento, sentir as dores do crescimento, experimentar o delicado do dia, o mistério da noite e o sabor de amar. Diante das primeiras balas que atravessarem minha falsa couraça; quando dela em vez de borbotões de sangue saírem sons de guitarra; quando do meio das ruas de meu mundo começarem a subir correntes de raízes e de sangue rubro de sua boca de beijo a minha colada; saberei me bem treinado. E em seguida verei que desde o norte da solidão fui para o sul, vento austral que a ti me trouxe. Desde então meu caminho junto com o teu caminho. E depois de atravessarmos o mar das intempéries, estaremos já de pé sobre a nova terra. Para então podermos reivindicar a possessão infinita de tudo que nela se abriga. Não mais buscaremos o amor; seremos o próprio amor. Um amor, porém, que requer práticas concretas. Não um amor apenas de palavras, de manifestações vazias de afeto. Que ele seja concreto em sua infinitude, bravo como raiz que teima em crescer, em viver. Flor que violácea, milagrosamente desabroche no inverno, pétala de Salvador Dali, aroma enevoado de copo de neve. O que quer dizer que em sua taça cristalina transbordará a poesia essencial de nossas existências.

E neste novo cenário infinitamente espacial; ao mesmo tempo submarino e subterrâneo; entraremos a conversar em plena luz do dia com nossos fantasmas solares, a penetrar no segredo das galerias que escondem a translucidez do cristal, a determinar as relações esquecidas entre o outono e a primavera, entre o homem e a mulher. Entre a metade que é você, a outra metade sendo eu.

Um novo continente longe das palavras evidentes se levantará na superfície de fogo deste mar. Uma nova construção aparecerá da mais secreta matéria de nossos sentimentos. A atmosfera; ao mesmo tempo luz e sombra; por vezes será iluminada de relâmpagos carregados de fosforescências e assombro. Entre singrar este mar, entre apaziguar suas ondas e espumas, em tocar suas margens misteriosas, entre chegar a estas terras e nomear seu reino, em percorrer toda sua geologia e sua geográfica extensão... estaremos nós.

Dois corpos se amando.

Duas almas se unindo.

Você sendo eu, e eu sendo você.

(R. Moran)
11/11/11

A pedido de Gimenez surgiu “O Amor requer prática”; Este me sugeriu um mote que relacionava a necessidade de treinar e exercitar a prática nas coisas da vida, sobretudo no amor. E o escrevi como uma cartilha, pensando neste alguém que está por vir... 

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domingo, 18 de dezembro de 2011

Uma parábola sobre...



Quando homens são feitos



Um homem muito rico, estando a beira da morte, chamou seus três filhos e falou:

- Tornei-os dotados de muita riqueza. A minha fortuna é grande e bastará a todos. Com meu trabalho honesto, criei um império que viverá por gerações. Mas para isso é preciso sabedoria. O dinheiro tem uma energia que precisa ser bem trabalhada. Não é pecado ter dinheiro, mas não se necessita amá-lo.

- Então basta que o aprouvemos como se quiser, sem adorá-lo? - perguntou o filho mais novo.

- Não – respondeu o velho pai – é preciso que o usemos com inteligência e ampliemos seu poder de transformação.

- Pois eu não amo o dinheiro, apenas o que ele pode comprar. - Disse o filho do meio.

- Pois a mim o dinheiro é sacro, e como tal deve ser respeitado e reverenciado. - Disse o mais velho.

- Nem tanto a nós, nem tanto ao vosso reino – admoestou o velho – Cada um tem um ponto de vista diferente e nem por isso menos verdadeiro. Valorizar o que o dinheiro proporciona, com a gratidão de quem se sabe merecedor, é mérito e conta de cada indivíduo. E tratá-lo com a devida reverência de quem sabe que ele nos foi dado por empréstimo como tudo o mais que há na Terra, é vital para sua boa aplicabilidade. Cuidar dele com zelo e desprendimento é para poucos.

- Pois fique tranquilo meu pai – disse o do meio – seu dinheiro estará em boas mãos. Usaremos teu exemplo para perpetuarmos teu trabalho.

- Que assim seja, meu filho. Mas penso que não terei formas de constatar isto quando aqui não mais estiveres. Certo de que a capacidade do ser humano em ser perpetuado só é mensurável após sua morte, uma vez que tenha partido não poderei no entanto mudar o passado, não terei poderes para interferir no presente e muito menos adiantar o futuro. Resta-me apenas deixar uma mensagem final que possa guiá-los.

- Mostra-se amargo meu pai. - falou com voz tensa o mais velho dos filhos – Por acaso acha que não somos competentes?

- Certamente que ainda não o são – falou o pai com candura, observando a reação na face de cada um – ou não precisaríamos estar aqui tendo esta conversa. Preocupa-me que o caminho do dinheiro desvirtue o que cada um tem de melhor em si, em detrimento do consumismo exagerado, da ostentação desnecessária ou da busca incessante pelo prazer mundano imposto pela sociedade e pela mídia.

- Então o que devemos fazer? Como nos prepararmos? – indagou o mais novo – Por acaso não nos ensinastes tudo que precisávamos?

- Devem ter em mente que o dinheiro é um meio, não um fim. E a preparação acontece no exercício diário da vida, onde cada um encontra seu caminho a despeito do que lhe tenha sido ensinado. Mas penso que existe uma maneira de ajudá-los nesta hora derradeira. Preparei um último teste, no qual acredito que apenas um será o escolhido para assumir este império. Como disse, o uso do dinheiro requer desprendimento e sabedoria para empregá-lo, o que é difícil – esclareceu o pai – Assim peço uma coisa simples que lhes ensinará o desapego ao dinheiro, bem como a forma inteligente de se dispor do mesmo. Quero que cada um, no dia do meu enterro, deposite 100.000 mil dólares em meu caixão. Apenas isso bastará como última lição. Aquele, ou aqueles que passarem pelo teste, assumirão integralmente as empresas, e aos outros caberá uma função no conselho da presidência, onde terão a oportunidade de aprenderem mais, para que no amanhã estejam prontos para trilharem seus próprios rumos com sabedoria.

Sem dar oportunidade para réplicas, o homem encerrou o assunto. E dali a dois dias de fato faleceu. No dia do enterro; já próximo da hora; o filho mais velho aproximou-se do caixão com um envelope contendo o dinheiro. Com relutância, depositou o mesmo, e lamentando disse:

- Sei que queres nos mostrar como o dinheiro não tem importância. Mas o reverencio e não vejo sentido no que fazes em desperdiçar tal valor. Mas acato tua vontade meu pai, sabendo que de onde saiu este há muito mais e saberemos usá-lo com sabedoria. - e após assim dizer, se afastou.

O filho do meio aproximou-se então com um maço de notas na mão e ficou olhando o pai deitado no caixão. Depois simplesmente jogou o dinheiro dentro e disse:

- Que desperdício... poderia comprar um carro novo para mim e assim ser feliz como o que o dinheiro pode proporcionar. Mas seja feita tua vontade, o importante é que o teste está cumprido. - e dando as costas, se afastou.

O mais novo dos filhos aproximou-se do caixão por sua vez e não trazia nada nas mãos. Depois do que pareceu uma prece silenciosa, ele acercou-se do ataúde e começou a recolher o envelope e as notas soltas enquanto dizia:

- Sinto muito, pai, mas para onde tu vais não serás necessário este dinheiro. Por via das dúvidas, deixarei um cheque no valor de 300.000 mil dólares no bolso do seu paletó. Se lá houver dinheiro, haverão bancos onde possa descontar este valor.

Após recolher todo o dinheiro, zelosamente tirou um cheque do bolso e o depositou junto ao velho pai.

Os outros irmãos olharam indignados tal atitude mas se contiveram em falar alguma coisa, visto que várias pessoas acompanhavam o inusitado da cena. Mas ambos pensavam em maneiras diferentes de reaverem seu dinheiro e punir o irmão espertinho.

Então, o advogado e testamenteiro do falecido pai chegou próximo do jovem e perguntou o que ele pensava em fazer com a soma recolhida.

- Este dinheiro mais os 100.000 dólares que tenho guardados serão importantes para modernizarmos uma de nossas fábricas, o que irá gerar mais lucros mas também mais empregos. Porém uma parte ainda irá para uma instituição que cuida de crianças doentes e que não tem recursos para receberem um tratamento digno – esclareceu o filho.

- Pois bem, provas assim de onde veio tua estirpe. O velho certamente está orgulhoso de ti, onde estiver. Tivestes sabedoria para perceber o absurdo de se enterrar o dinheiro que iria apenas apodrecer debaixo da terra, não tendo nenhuma utilidade prática. E por que entendestes bem o que é desprendimento; procurando usar o dinheiro não em usufruto próprio; mas no crescimento da empresa e na geração de renda para outras famílias. Bem como o altruísmo de se saber empregar parte dele na melhoria da sociedade.

E assim falando, instituiu o filho mais novo na presidência das empresas.

(R. Moran)


*esta parábola nasceu de uma pertinente anedota contada pelo meu grande amigo e irmão Chico, enquanto filosofávamos sobre o dinheiro e sua empregabilidade correta. Tive um insight e invertendo o sentido da anedota, transformei-a em algo que fosse passível de reflexão sobre os rumos que nossa sociedade consumista está tomando.Da insatisfação perene que todos tem, do vazio coletivo. A este propósito, cabe ressaltar que desta longa conversa surgiu outros dois textos ainda não acabados e que no tempo certo serão publicados. E por isso registro aqui meu muito obrigado a este que tem sido um efetivo co-criador, me passando tua vasta experiência de vida calcada na impecabilidade do caminhar. Dedico então está parábola a este que é antes de tudo um Guerreiro...

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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Por oceanos que atravesso...



   Há quantos oceanos atravessei? Por quantas tempestades me perdi, e fustigado pelas ondas quase sucumbi?

   Hoje me encontro na ponte do navio, a contemplar o furioso de espumas de mais uma tormenta que me colhe. De ventos cortantes como adagas que batem em minha face, que me sangram, sacodem meu navegar e me lançam a rumos incertos. De mãos crispadas ao leme a procurar tenência no rumo. De noites sucessivas sem estrelas onde não me guio por tua luz, apenas pelas lembranças do que tinha como caminho certo. Desejoso de um pouco de calmo singrar, de paz nas contendas d'alma, de um porto ao menos que me desse um pouco de guarida deste furacão marítimo que hora atravesso. Mas receoso de me aproximar da costa que não adivinho, de ser lançado de encontro as barreiras de falácias coral, esfacelando o pouco que resta de mim ainda inteiro. Sinto erroneamente que me fizestes mais mal do que bem, posto que sou falho e não tenho medidas agora para me dizer o contrário. Por enquanto...

   Que com tua insensatez desprezastes o que tinha de mais nobre em mim em nome de um pretenso amor que destrói e arrasa. Que inconsequentemente tomastes decisões que afetavam a mim muito mais profundamente do que sequer sua vã filosofia possa imaginar. Que depois de me lançar ao mar contigo, simplesmente abandonastes o barco deixando-me preso nesta tempestade de látegos de chuva, raios e fosforescências invernais. Egoísmo! De quem comodamente, ou por covardia, preferiu se obliterar em falsos conceitos morais de pureza... enquanto outra parte desprezava teu semelhante nas diferenças, no conhecer, nos gostos, nas opções de vida, sexuais, na segregação daquilo que te dizem não ser compatível de professar a fé como a cada um lhe convêm. Na ignorância de não querer ver o que nos foi dado gratuitamente, o quão ricos fomos abençoados e tão barato fizestes questão de vender. Ou deixar perder...

   Não tenho esperanças próximas de me desvencilhar deste fragoroso temporal. Mas sigo, pois nunca se sabe aquilo que podemos aprender com todo esse oceano tempestuoso. E por mais que eu queira, a despeito dos riscos, não vejo costa onde possa repousar meu espírito extenuado. Adinâmico estou em tentar manter flutuando este barco de existências em que me formei. Que tem os porões pesados; não de tralhas; de ricos tesouros acumulados que agora ameaçam ir ao fundo sem que seja dada a oportunidade de virem de dentro para fora brilhar enluarados pelo imenso espelho d'água deste incalculado oceano.

   Minto! Ainda tenho dentro, junto e misturado a estas riquezas a dor. A tristeza agora compreendida; não por que partistes; mas pela solidão em que me deixaste no momento em que mais necessitava. Solidão que assola acachapante, que saboreio com o travor e a amargura própria de verde laranja marinha... sabedor que um dia irá amadurecer e se fazer doce. Mas que agora; e aos que como eu dominados pela dor; existirá somente um instante de se lançar ao esquecimento, no melhor momento em que o abismo que se abre entre as vagas das monumentais ondas que se erguem dessa tempestade permitirem. E ali abandonar esta carga de fel, para que as águas revoltas a engulam para não mais voltar.

   Percebo agora o quão amargo estou. Amargo da língua, amargo da alma, amargo de solidão. Mas sou pertinaz. Não me acovardo diante do desconhecido solitário deste oceano bruto. Sinto fome de viver, sinto vontade de cantar por sobre o grito da tempestade, sinto ímpetos de esbravejar ao nada de tua alma que me cerca que não me entregarei, sinto desejos de sorver o Tudo deste desmedido que me envolve e regurgitar em poesia o meu sangue vertido em esperança... de, num novo amanhã, poder ter a quem amar. Alguém que saiba reconhecer o brilho d'alma e dar valor ao que realmente importa...

   E nisto vejo a doçura que ainda trago dentro de mim. Nisto reside minha fortaleza, minha fé, minha esperança. Em saber que; ainda que perdido; sou comandante deste almirantado navio que sangra mas singra. Que as mãos que me conduzem pelo desconhecido serão as mesmas mãos que um dia irão tomar as tuas e nelas depositar meu canto, minha poesia, minha vida. A este alguém que está por vir confio no farol que finalmente me guiará a liberdade desta noite insone.

   Mas que fique claro! Ficaremos em terra o tempo suficiente para aplacarmos a sede da alma, para reorganizarmos os porões do navio na certeza de colhermos mais riquezas de vida, para limparmos as cracas do casco martirizado pelas explosões de ondas, para nos reabastecermos de saber e valores verdadeiros; para então podermos; juntos; retornarmos ao absoluto Mar. Posto que fui picado por teu fascínio conhecido desconhecido de novas águas; que fui viciado em teu cheiro de maresia espacial; que passei a respeitar e amar tua fúria contida, noutras nem tanto. Que estacionar em terra não é mais opção; é abandono e morte de um espírito guerreiro. Por oceanos velhos conhecidos e principalmente pelos novos que se descortinam é que singraremos.Esta será nossa casa; azul de mar e céu, branca de espumas de ondas; colorida de beijos rubros e ares madrigais.  Muito há que se fazer, nuito mais o que se descobrir...

Neste que é o “Glória dos Mares”. Glória de amares...


(R. Moran)


*este texto foi escrito na terça-feira, 13/12, em um momento de certo amargor e atribulação. Depois de pronto, não tive disposição para publicá-lo naquele momento. Acabei recorrendo a um texto um pouco mais antigo que também aguardava sua vez. Mas hoje me sinto mais confortável, e então o entrego a todos que; sofrendo; não perdem jamais a ternura e a esperança de que é possível seguirmos a despeito do que nos façam mal, seguirmos ainda que nos digam não, pois que a nós só resta a certeza do Sim.

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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O Conhecido Desconhecido


Tirei umas férias neste fim de semana. Desconectado. Penso que uma pausa necessária do “Caminho”. Preparação para o novo que surge. Este post foi escrito na sexta-feira, e por desígnios únicos, somente hoje vem a luz trazendo à tona o imenso deste mergulho em inolvidável mar...
Rumo ao conhecido desconhecido...

Estou de partida. A voz metálica já anuncia a aproximação da hora de embarcar. A um frio na barriga, uma dormência suave nos lábios. O medo é natural; e embora por isso possa parecer um inimigo natural; ele é antes de tudo um amigo, um aliado que me protege fisicamente, que me educa e me motiva a ir além. Respeito-o, e nele encontro a coragem para lidar com tudo que se avizinha.
Penso que muitas pessoas não alcançam seus objetivos não porque tenham fracassado no caminho, mas porque o medo de fracassar as impediu de tentar realmente, de avançar. Para seguir é preciso ousar, cometer erros e aprender com eles.
No entanto, temos que ter em mente que nem todas as coisas merecem nosso esforço e ousadia. Nem tudo é uma competição onde se perde e ganha. Primeiramente, precisamos conhecer a nós mesmos, nosso imo, nossa luz interior e na crença daquilo que mais firmemente acreditamos. Depois, é necessário olhar o correspondente que há em cada passo do caminho: tua impecabilidade, tua atenção, tua firmeza e tua luz. Só assim saberemos pelo que vale a pena lutarmos com todo nosso denodo.
E por assim pensar, por assim acreditar, que transformo crises em oportunidades, o impossível em possibilidades. E com coragem sigo a mergulhar na ansiedade do desconhecido. Que no entanto me mostrou tua face de luz, me disse com o coração e me tocou no mais profundo do ser. Penso então que não tão imprevisto, não tão incógnito... penso sim, que caminho altivo e arquejante, rumo ao conhecido desconhecido...

Ah! Agora eu sei, caminho em direção a Luz...

(R. Moran)
09/12
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